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Altermedia Portugal – na rede desde 17 de Junho de 2003: Numa era em que a mentira é universal, dizer a verdade é um acto revolucionário. (George Orwell)


Ler e reler

August 18th, 2009 · Post your comment (No Comments)

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Jaime Nogueira PintoJaime Nogueira Pinto – Sou de uma geração que se habituou a ler ficção – muita e cedo: Balzac, Hugo, Dumas, Flaubert, Maupassant, Drieu, Malraux, Mauriac, Dickens, Tackeray, Huxley, Maugham, Waugh, Melville, James, Hemingway, Steinbeck, Scott Fitzgerald, Nabokov, Dostoievsky, Bulgakov, Pasternak?

A estes escritores do mundo juntava-se, por obrigação ou gosto, toda a literatura portuguesa, de Gil Vicente e Camões a Camilo, Eça e Aquilino. E os clássicos – a Bíblia, Homero, os trágicos gregos, Boccacio, Shakespeare, Cervantes, Milton.

Assim, entre os treze anos e o fim da faculdade, dez anos depois, tínhamos devorado estes autores e livros, mais uma infinidade de géneros, títulos e autores menos “respeitáveis”: dos Salgari, capa e espada e Biblioteca dos Rapazes da infância, à ficção científica, ao terror, aos thrillers e à espionagem, da juventude. Líamos como possessos, desvairadamente, à toa, com prazer e com paixão. Como víamos cinema.

O único inconveniente destas leituras adolescentes é que lemos, cedo, muito novos, obras essenciais. E porque as lemos não voltamos a lê-las, quando elas mais importantes podem ser para nós.

Por isso chega o tempo de reler.

Borges, interrogado sobre o que estava a ler, dizia que há muito deixara de ler, que só relia.

É um conselho a seguir com cuidado havendo tanta coisa a ler – ou pelo menos a ser editada – e pouco tempo (cada vez menos) do nosso lado.

Relê-se em função de sugestões e evocações: depois de ver a “Reine Margot” (filme, com a Isabel Adjani) fui reler o romance de Dumas e na semana passada li os “Quarente-cinq”. Quando vi há pouco, em DVD, a versão da BBC de “Guerra e Paz” (1973), com Anthony Hopkins a fazer de Pierre, apeteceu-me reler o livro todo (devo tê-lo lido aos 17 anos, no fim do liceu, e reli partes, no exílio, em Madrid aos 30). Este Verão a leitura de “How Fiction Works”, de James Wood, levou-me de volta a Flaubert e a “Madame Bovary”. Que lembra em tanta coisa o “Primo Basílio”, com Monsieur Homais e o conselheiro Acácio e o perfil, modos e fim das heroínas; e dos amantes e dos maridos. Como o Benjamin Button – o filme de David Fincher – me levou de volta ao admirável conto de Scott Fitzgerald. Este nunca me fartei de o ler: quatro vezes o “Great Gatsby”, duas “This Side of Paradise” e “Tender is the Night”.

Quanto a Flaubert, levei a “Educação Sentimental” nas marchas finais da recruta da EPI, de Mafra, no Verão de 1973, entre Vale de Lobo e a foz do rio Lisandro. Era um livro de “poche” e cabia no bolso lateral do camuflado. Há trinta e seis anos. Como o tempo passa…

Com a devida vénia ao i online.

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Tags: Cultura

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