Porque discordaram e discordam do actual Governo?
Nós, nacionais-revolucionários, sindicalistas e homens livres que em 1933 marcamos uma posição de nítida discordância política do Poder, proclamávamos então como proclamamos hoje a necessidade de integrar no Estado as forças populares. Para isso governar não podia ser impor , mas sim fazer aceitar , conseguir a colaboração de todos os que trabalham, através duma mística revolucionária da conquista das liberdades contra as prepotências da riqueza e da sua posição.
As liberdades?
Claro! As liberdades económicas como base das liberdades políticas. Gritamos primeiro de que ninguém o imperativo do económico-social hoje triunfante na Europa. Sem a conquista do pão e da justiça social essencial, as liberdades políticas seriam vãs ou uma mistificação.
E como obter essa conquista?
Pela revolução nacional dos trabalhadores, que era por outros métodos, o que se tentou pela decisão eleitoral na Inglaterra do trabalhismo de hoje. Já lá vão 10 anos…
E o governo como as encarou?
Como revolução que aceitava a minha fórmula «É preciso que os muito ricos sejam menos ricos, para que os muito pobres sejam menos pobres». Nós não aceitamos hoje o statu-quo capitalista e burguês em que os fortes esmagam livremente os mais fracos. Preconizamos, pois, uma orgânica econômico-social que, marcando deveres, assegure os direitos sociais dos portugueses.
Não concordaram então com o Corporativismo?
Não podíamos aceita-lo nas bases em que foi posto e daí data mesmo a acuidade da nossa discordância do Poder. Nós queríamos como queremos hoje que os trabalhadores se organizem livremente nos seus sindicatos que de formação em formação iam até à indicação dos seus representantes no Poder. Queríamos e queremos a nacionalização progressiva das grandes indústrias de interesse público, a nacionalização da Banca, a resolução do problema do crédito, a assistência na invalidez e na doença, a reforma para todos os trabalhadores, o ensino e a justiça gratuita, a abolição do imposto sucessório de pais para filhos, queremos, em resumo, tudo o que possa assegurar a desproletarização das massas, erguendo os trabalhadores ao nível das classes médias e defesa destes como base da nacionalidade.
E o Governo?
O Governo considerou-nos «perigosos» indesejáveis… e confiou a situação à chamada «União Nacional», formação de moderados, vindos de todos os partidos, burgueses sem alma nem nenhuma fé nos imperativos nacionais e revolucionários do nosso tempo — gente «sensata» a quem apenas interessava a segurança da sua posição pessoal e as suas vantagens.
Daí em diante…
Daí em diante não nos foi permitido que, pelo menos, oficialmente, pudéssemos impulsionar as nossas doutrinas.
São muitos os que discordam?
Fomos muitos e muitos mais somos hoje.
Pode citar nomes?
Por enquanto é cedo. De resto são bem conhecidos: militares dos mais bravos, professores entre os mais ilustres, advogados, engenheiros, estudantes, lavradores, comerciantes, industriais, e sobretudo o povo. O povo das oficinas e dos campos, todos os que anseiam por um sistema de ordem na justiça!
Foram os senhores acusados de estatistas e, até de fascistas.
As nossas intenções foram desvirtuadas pelas aparências. Como todos os partidos revolucionários, não podendo como na Inglaterra fazer a revolução nas urnas, seguimos o método em voga e com as possibilidades legais de então, para a conquista do Estado: formação em coluna e um signo de aliança para a batalha [ (a Cruz de Cristo) ] — pouco importa que a camisa de combate fosse encarnada, como nos comunistas, ou de ganga azul, como a dos trabalhadores portugueses, que era a nossa. / No parque Eduardo VII [18 de Fevereiro de 1933] foi definida logo de começo a nossa atitude «para além da democracia, do fascismo e do comunismo» no sentido de resgate da pessoa humana. Nunca fomos estatistas, pois éramos sindicalistas. Proclamamos um Poder forte para garantia das liberdades, acentuando que Nação e Estado não eram um fim mas um meio de servir o homem — nunca o motivo do seu esmagamento. / Ao contrário da forma decalcada do fascismo «tudo pela Nação nada contra a Nação», nós proclamamos «tudo pelo homem nada contra o homem». No livro Justiça (1936, que aliás foi proibido de circular, resumi todas as ideias do nosso credo de personalistas e comunitários. A pessoa humana reflecte-se, reforça-se, enraíza-se na Comunidade para com mais segurança poder ser livre.
O vosso partido não é então uma coisa fechada?
Pelo contrário, proclamamos a necessidade duma aliança de todos os portugueses livres, isto é, mantendo-se cada um na sua posição ideológica mas convergindo todos livremente, no sentido de realizar um programa de justiça social e de resgate do Homem, a grande vitima do nosso tempo.
Entrevista de Rolão Preto ao Diário de Lisboa , 19 de Outubro de 1945



