Alfonso Beltrán é um revolucionário espanhol de longa data, foi um dos impulsionadores da extinta revista nacionalista revolucionária “Resistência” e participa actualmente no blog Antagonistas após uma incursão no Movimiento Social Republicano. Foi também amigo e camarada de Norberto Ceresole, personalidade revolucionária que a Resistir tem vindo a divulgar.
Agradecemos ao mesmo por ter cedido em dar-nos esta entrevista que, esperemos, não seja a sua última colaboração. Esta é a primeira de uma série de entrevistas que a Resistir está a levar a cabo através das quais daremos a conhecer aos nossos leitores diversas personalidades pouco, ou nada, conhecidas em Portugal.
Talvez esteja em ordem uma curta introdução, talvez do seu percurso político? Quando despertou para a política revolucionária?
Tenho 42 anos. Militei nas minhas adolescência e juventude em diversos grupos falangistas e nacional-revolucionários.
Li numa sua entrevista que o colectivo que fundou a “Resistência” tinha por única plataforma comum o desgosto pelo que os grupos de direita, tanto a do sistema como a de “direita nacional”, aquela a que a comunicação social (media) chamam de “extrema-direita. Pode falar-nos desta realidade?
A direita nacional espanhola foi utilizada como “mão de obra” barata pelos políticos da Transição Democrática; do mesmo modo que o Regime Franquista utilizou os falangistas durante 40 anos. Num e noutro caso os manipuladores tinham os mesmos nomes e apelidos; e utilizavam os mesmos mitos e as mesmas mentiras para manter na inépcia, na inércia e na ignomínia as franjas juvenis do movimento político, até as converter em parte residual do sistema.
Assim foi e assim é a extrema-direita nacional espanhola. Nada mais.
“Resistência” foi uma revista como nenhuma outra que tenha lido, comparável talvez apenas com a “Rebélion” francesa. Inspiraram-se em alguma publicação estrangeira para a sua fundação?
Não. Foi uma iniciativa autónoma e autóctone fruto de uma experiência política – cultural comum de tipo radical – geracional.
O panorama editorial espanhol é muito vasto, com revistas como “Nihil Obstat” e a “Manifiesto” ainda em publicação. Acredita que é possível um regresso da “Resistência”?
Não vejo que seja provável, dadas as circunstâncias actuais. Mas nada é impossível… Como contempla os actuais Partido Nacional Bolchevique russo, de Eduard Limonov, e o percurso de Dughin? A Rússia será um exemplo para a esquerda nacional europeia? Será Putin um patriota revolucionário? A verdade é que não sigo muito a actualidade política radical russa. Nunca fiz parte da moda “nacional-bolchevique” propagada pela Nouvelle Droite francesa. Valorizo aspectos importantes da obra filosófica de Dughin. Mas no que diz respeito a Putin o seu modo de proceder sempre me pareceu “sinuoso”. Não confio demasiado em nenhum pan-nacionalismo.
Parece-nos que a recente vitória de Sarkozy se deveu a um racismo “politicamente correcto”, islamófobo e anti-imigracionista ao mesmo tempo que defensor de Israel e do sionismo. Acredita que a influência de eurosionistas como Guillaume Faye foi assimilada pelo sistema francês, no discurso de Sarkozy?
A realidade é o oposto. Foi a extrema-direita francesa que foi utilizada pelo sistema de poder do Estado francês. Actualmente o discurso eurosionista e islamófobo é um discurso de Estado que faz parte dessa espécie de Frente Judaico-cristã europeia que começa mais à esquerda do que parece. Para o neo-racismo politicamente correcto, os epígonos incorrectos e raciofóbicos de Petain, de Le Pen, de Vial ou de Faye já não servem para nada. São descartáveis. Foi o que sucedeu nas recentes eleições francesas…
Como ocorreu a colaboração de Norberto Ceresole com “Resistência”? Como contempla hoje a Revolução bolivariana da Venezuela de Hugo Chávez?
Conhecemos Ceresole através dos nossos contactos na comunidade islâmica de Madrid, no exílio palestiniano e noutros colectivos de base. Naquela altura Ceresole estava empenhado em dar a conhecer a realidade da Revolução Bolivariana de Chávez (da qual foi o seu primeiro e principal ideólogo) e foi assim, através da sua pessoa, que conhecemos a realidade de um Movimento Revolucionário que – na minha opinião – caminha na direcção correcta, apesar de tudo e todos, para converter-se em foco e modelo da Libertação dos povos da América Latina.
Não raras vezes a área patriota espanhola manteve boas relações com países muçulmanos, editando-se mesmo a revista “Handschar”. Acredita que países como o Líbano, o Irão e a Síria são uma boa fonte de oposição à hegemonia mundial dos EUA?
Acredito efectivamente ainda que, como hoje, e como sempre a República Islâmica do Irão é a principal referência política, estratégica e espiritual que pode erguer os Povos contra a hegemonia global dos Devoradores do Mundo: Estados Unidos, Israel e os seus cúmplices e lacaios internacionais.
A seu ver é possível o regresso de um Islão revolucionário sunita sem Saddam Hussein? Ou o futuro do Islão revolucionário, também no Iraque e no Líbano, será xiita?
Existem certamente no campo sunita correntes e movimentos islâmicos de carácter revolucionário. Basta citar o Hamas na Palestina ou o Movimento neo-sufi Justiça e Fé em Marrocos. Mas é verdade que os xiitas se encontram na vanguarda da teoria e da praxis do Islão revolucionário.
Em tempos fez parte do MSR, quando este partido nos parecia legitimamente de Esquerda Nacional. Actualmente julga ser possível um regresso do MSR às fileiras da Esquerda Nacional? Haverá espaço para a criação de um novo partido de esquerda nacionalista em Espanha?
Não sei. Isso teria que perguntar-lhes, e digo-o com o maior dos respeitos: nunca se pode perder a esperança. De momento, para criar um Partido do tipo de Esquerda nacional que mencionas fazem falta que surjam condições subjectivas, mais do que objectivas, que actualmente não ocorrem em Espanha. Faz falta uma “massa crítica” maior e um maior nível de responsabilidade política que não existe hoje em dia.
Acha que Espanha é viável como país ou terá que lidar melhor com as realidades dos nacionalismos separatistas? (Galiza, País Basco, Andaluzia, etc.)
Espanha é tão viável como pode ser qualquer outro Estado nacional nestes tempos de globalização. Mas Espanha como comunidade nacional de destino, como Pátria, só será uma realidade na medida em que possa transformar-se no que corresponde ser como povo e nação revolucionários: uma República Federal.
Conhece algo da realidade portuguesa? “Resistência” contava com leitores portugueses? Já visitou Portugal?
Lamentavelmente nunca visitei Portugal. Em jovem estudei o nacional-sindicalismo português de Rolão Preto e a evolução paralela dos “Estados-novos” ibéricos: o de Salazar e o de Franco. Temo que a realidade política e social de Portugal e de Espanha não diferem muito mesmo na actualidade.
“Resistência”, é certo, contava com assinantes e amigos em Portugal. Recordo também que havia uma relação fluida com uma revista revisionista que existia naqueles anos e que dava pelo nome de “Justiça & Liberdade”…
Mantém-se ao corrente dos agrupamentos de esquerda nacional no estrangeiro? Conhece o anarquismo nacionalista nas suas vertentes inglesa, impulsionado por Troy Southgate, Welf Herfurt e Peter Töpfer entre outros?
Não. Não conheço nenhum desses grupos.
Recordo que utilizavam a imagem do Dr. Ernesto Guevara, o “Che”, na vossa publicação. O Guevarismo é uma atitude revolucionária actual? Ou já ultrapassada?
Não recordo ter utilizado o fetiche do “Che”. Creio que o “guevarismo” é actualmente – como bem o dizes – uma atitude “ultrapassada”.
Já pensaram em publicar os textos de “Resistência” numa compilação, talvez num livro? O blog “Linha Antagonista” é uma continuação da “Resistência”?
O Blog Antagonistas continua na linha de princípios dos postulados básicos da “Resistência” sem cair no dogmatismo nem no testemunhado. A Linha de “Resistência” está sempre viva; não devia enterrar-se em nenhum livro. É só a minha opinião.
Portugal tem vivido numa crise económica muito forte, a extrema-direita e a extrema-esquerda andam a sair à rua, o povo está cada vez mais pobre e o desemprego aumenta. Julga ser possível alterar as políticas económicas nacionais sem o desmantelamento da União Europeia e o abandono do Euro?
Dada a correlação de forças políticas e económicas na União Europeia das multinacionais, a sua política de ampliação e as dinâmicas do Capital internacional, não é utópico pensar que o modelo sistémico poderá colapsar por si mesmo a qualquer momento. Devíamos preparar-nos para essa eventualidade.
Acredita que a ideologia identitária, como delineada por Pierre Vial e Guillaume Faye, é um cavalo de Tróia sionista? Ressuscita mitos ultrapassados de supremacismos raciais e civilizacionais?
É algo que já muito poucos militantes identitários de boa fé podem ocultar. Foram desmascarados. E nós – digo-o sem falso orgulho – temos colaborado dessa desmascarização.
Aznar esteve esta semana em Portugal, onde criticou a política de imigração e o multiculturalismo. Acredita que seguirá o discurso alarmista de Sarkozy para o PP regressar ao poder em Espanha? Os patriotas espanhóis ainda se deixam enganar?
Os “patriotas espanhóis” – ou os que se dizem como tais – “deixam-se enganar” sempre: é do seu interesse. Aznar foi durante os anos do seu governo a principal referência desses “patriotas de ocasião” e identitários de salão. Não são inocentes. Fazem parte da trama social e ideológica da Direita espanhola. São escória.
Caso deseja acrescentar algo, esteja à vontade.
Nada mais além de saudar os nossos irmãos portugueses e desejar os melhores votos de boa sorte (…) em todas as suas iniciativas revolucionárias.



