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Ezra Pound Libertado

November 9th, 2005 · Post your comment (No Comments)

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Ezra Pound libertado. Ezra Pound em Itália, a caminho de Rapallo. « Louco incurável mas inofensivo » — disseram finalmente os médicos. E todo o mundo culto se alegrou com a notícia que dizia ter terminado enfim o cativeiro do maior poeta deste século, o criminoso de guerra, o louco incurável Ezra Pound.

«Eisenhower nem sabe onde eu estou», escrevia Pound a um jornalista, por ter recebido um convite do Presidente para jantar.

Papini morreu antes de o ver libertado. E quantos outros não morreram também, ao longo destes catorze anos — nomes mais modestos —, que de qualquer maneira contribuíram para que hoje possamos saber o poeta na sua querida Itália. Os acontecimentos que provocaram o assassínio de tantos conduziram Pound à cadeia de Coltano e ao St. Elizabeths Insane Asylum, de Washington. Porquê? Por suspeita de traição. Porque considerava a política de Roosevelt como a de « um frango com a cabeça cortada »; porque previu, quando a Alemanha atacou a Rússia, que Ingleses e Americanos jamais poderiam vir a perdoar-se por não terem tomado parte nesse ataque. Porque em 29 de Julho de 1941 ainda insistia: « É já muito tarde. Já não há tempo para repetir tantas vezes quantas seriam necessárias que se devia organizar um exército de voluntários. Que o Comunismo e a Rússia são os verdadeiros inimigos e quem quer que não veja isto é imbecil ou louco ».

Ezra é nome profético, e as profecias de Pound cedo se verificaram com a estrondosa queda do mito Roosevelt, com o rebentar dos bonecos de cartão que nem sequer algodão em rama tinham no lugar do cérebro, e que são os responsáveis pelos erros trágicos da política ocidental dos últimos vinte anos.

A tremenda crise de 1929 nos Estados Unidos, com 6 mil falências bancárias e quase 15 milhões de desempregados — crise por que Pound sofreu, profundamente, na alma, como americano; o espraiar das teses comunistas a que as políticas demagógicas do Ocidente se mostravam incapazes de opor uma barreira eficaz, criando um clima aflitivo, que o espírito lucidamente culto de Pound apreendia com trágica clareza; a crise social daí advinda para a Europa —, numa palavra, o mundo saído de Versalhes e que se preparava já para Nuremberga constituía para Ezra Pound uma preocupação desesperada, preocupação constante nos seus Cantos — a obra poética mais importante e mais significativa do século XX.

Na Marcha sobre Roma viu o poeta o primeiro movimento sério contra a grande potência que dominava o mundo e que ele designava por Usurocracia. « Ao mesmo tempo, Pound combate o comunismo, força só na aparência oposta à usurocracia, mas que a auxilia na prática, aproveitando dela, estendendo as suas malhas por entre os conquistados e os deserdados, palmo a palmo destruindo a civilização europeia » — como escreveu Ricardo Degli Uberti, numa calorosa e impressionante defesa de Pound no Corrieri della Liguria, em 14 de Abril de 1956. Foi em Itália — escreveu o poeta em 1929 —que encontrou « o único país da Europa onde há uma resistência bastante sólida à usurocracia internacional ».

Ezra Pound nunca foi anti-americano. Por ser profundamente americano é que as suas queixas contra as demagogias rooseveltianas foram tão violentas, tão sinceras. Por ser americano é que quis regressar à América quando o seu país ia entrar na guerra, só não o fazendo porque, como então escreveu ironicamente a Degli Uberti, os «Clippers» eram só para levar correio.

Ao fim de catorze anos, foi libertado o poeta Ezra Pound. Vitória da inteligência sobre as pequenas paixões. « Louco incurável mas inofensivo »! Faltou coragem para lhe fazerem a reparação justa. Paciência. Ezra Pound regressou à Itália. Tê-la-á reconhecido?

Fernando Guedes
(In «Tempo Presente», n.º 2, Junho de 1959)

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