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Guerra ideológica

September 14th, 2007 · Post your comment (No Comments)

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Nos planos traçados pelos estrategas americanos, nos finais da Segunda Guerra Mundial, para a conquista da Europa, ou seja a sua total submissão, previam-se 50 anos.

A previsão revelou-se como exacta. A queda da União Soviética, após meio século de guerra política, económica e militar, eliminou o comunismo e com ele toda a vontade residual de resistência perante a vontade de domínio por parte de Washington.

Os Estados Unidos podiam, pois, passar à segunda fase da sua ofensiva planetária que, nos seus planos, incluiria a conquista da Ásia.

O comunismo asiático era já um “tigre de papel”. Disposto a abrir as suas portas ao capitalismo embora conservando no sei interior as estruturas dos Estados totalitários, capazes de reprimir com punho de ferro a mínima dissidência política. A China popular, tal como o Vietname, já não eram inimigos, eram apenas mercados a conquistar para aumentar as vendas das multinacionais ocidentais, acompanhando os seus lucrativos negócios com a conquista cultural dessas povoações destinadas a acabar, os japoneses afogaram na Coca Cola os seus samurais juntamente com o seu passado.

Contudo, para refutar os planos americanos, existia e ainda existe um inimigo muito mais perigosos que o comunismo, potencialmente capaz de impedir a conquista da Ásia, que os americanos previram executar no decorrer de um século: o Islão.

O Islão é uma religião que possui um único texto sagrado: o “Alcorão”, que contém as revelações de Alá ao profeta Maomé. O livro sagrado dos muçulmanos, ao contrário de qualquer outro sobre o qual se baseiam as diferentes religiões existentes, contém no seu interior normas que devem administrar os povos no plano moral, cívico, económico e penal.

O “Alcorão” é, consequentemente, também a Constituição do Islão, destinada a regular a vida de mil e duzentos milhões de crentes, na sua maioria concentrados no Médio Oriente, na Ásia e na África.

O Islão configura-se segundo os parâmetros dos valores ocidentais como uma ideologia tão mais perigosa quanto mais inspirada por Deus, que o transforma numa fé que nenhum crente pode negar ou adaptar às exigências políticas contingentes.

Que resultados desastrosos podem resultar para o mundo capitalista a relevância do “Alcorão”, como se testemunhou com a revolução iraniana, quando no breve decorrer de poucas semanas as fronteiras desse país, sob o Xá, que era um baluarte desavergonhado da civilização ocidental, se fecharam para tudo o que era proveniente do Satã ocidental, particularmente o que era americano.

Com um só golpe, os Estados Unidos e o Ocidente perderam um aliado político e militar, um rico mercado e a possibilidade de prosseguir a sua conquista cultural sobre a população iraniana, capaz de esvaziar todo o conteúdo da sua fé religiosa, modificando radicalmente os costumes, as tradições e a identidade do povo.

Se as normas muçulmanas contrapõem a pureza dos costumes das suas populações à imoralidade e à vulgaridade dos hábitos ocidentais, convertendo-se na prática num obstáculo insuperável para a afirmação do modelo de vida ocidental, o maior perigo para o mundo capitalista provém da proibição corânica de “criar dinheiro com dinheiro”, ou seja, a proibição sic et simpliciter da usura, ou seja do juro, que é a base fundacional do capitalismo.

A oposição é total.

Uma vez mais dois mundos antagonistas se encontram frente a frente, mas com a possibilidade de conviver em paz se a concepção totalitária das democracias capitalistas não tornasse possível a guerra: defensiva por parte do Islão, ofensiva por parte de Washington e dos seus aliados.

Os Estados Unidos, Israel e os seus aliados começaram por desencadear uma guerra entre o Irão e o Iraque, que resultou no custo de um milhão de mortos; prosseguiram com um golpe de Estado na Argélia, a fim de invalidar o resultado das eleições que tinham dado a vitória à Frente Islâmica de Salvação, alimentando uma guerra civil e uma repressão que já provocou pelo menos duzentos mil mortos; ajustaram contas com o seu ex aliado e pupilo Saddam Hussein, mediante uma guerra, um bloqueio económico que custou a vida a meio milhão de crianças iraquianas (um “preço aceitável”, segundo a secretária de Estado Madelaine Albright) e uma segunda guerra que ainda decorre e que já provocou mais de cem mil mortos; invadiram o Afeganistão no qual já também os mortos se contam aos milhares; provocaram a guerra civil no Sudão e ainda não se deteram perante nada.

Certamente, entre os motivos desta guerra que custou já milhões de mortos, se destaca a defesa de Israel, que desde Maio de 1948 controla a “terra santa” do Islão, adquirida primeiro com dinheiro e enganos e, posteriormente, com a força militar.

Mas a necessidade de Washington e dos seus aliados em garantirem a existência do Estado de Israel, mesmo que não esteja ameaçada por nenhum dos Estados árabes circundantes, é um objectivo contingente, uma vez que o propósito da guerra declarada contra o Islão é ideológico.

No mundo globalizado que a potência estadunidense e os seus aliados pretendem criar pela força das armas e do dinheiro, não há lugar para um credo religioso que opõe Deus ao ouro, a honestidade dos costumes à corrupção moral encontrada no Ocidente, nem para um Estado capaz de assegurar uma maior justiça social e a proibição absoluta da exploração do homem pelo homem.

O mundo islâmico está em expansão. O seu crescimento demográfico espanta um Ocidente envelhecido à mercê do seu frenesim de enriquecimento e da dissolução dos seus costumes.

Num número cada vez maior, os muçulmanos cruzam as fronteiras dos seus países de origem para os ocidentais, mantendo inalterada a sua fé e as suas tradições, exemplificando um modo de vida que contraste, dentro do Ocidente, com o ocidental.

A capacidade dos Estados islâmicos de viverem e prosperarem utilizando normas que se opõem às do capitalismo, concebendo um mundo no qual o dinheiro ocupa o último lugar da tabela e no primeiro se encontram as prioridades humanas, aterroriza um mundo capitalista que substituiu Deus pelo ouro e que, pelo ouro, mata e morre.

Para aqueles que, sugestionados pela propaganda bélica emitida pela comunicação social de massas, vêm no Islão um inimigo a combater porque atenta contra a nossa “civilização”, chegou a altura de escaparem da triste fascinação dos cabeçalhos e questionarem-se em que consiste verdadeiramente essa fé religiosa que não se limita a pregar aos seus fieis o direito e o dever de conquistarem o Paraíso celestial, mas que também impõe normas que lhe permitem viver num mundo mais justo.

Para todos aqueles que consideram que o capitalismo, em todas as suas formas, conduziu à decadência da nossa civilização, e que levará fatalmente à sua destruição, chegou a altura de escolher: aliam-se politicamente ao Islão para combater uma batalha comum contra o capitalismo, ou enganam-se a si mesmos e aos restantes na crença de que existe ainda uma civilização cristã a defender perante a ameaça islâmica.

Pelo contrário, a nossa civilização defende-se e afirma-se apenas mediante uma aliança política com um mundo que representa mais de mil e duzentos milhões de homens empenhados como nós em destruir o bezerro de ouro com o qual substituíram Deus, para que os homens possam voltar a olhar o céu e voltar a encontrar nele aquele Deus justo que o mundo do dinheiro nos tenta convencer que morreu.

Uma aliança possível, como já se verificou em condições distintas durante a Segunda Guerra Mundial, quando países pobres combatiam, não por mero acaso, na guerra do sangue contra o ouro.

Há mais de meio século que o ouro venceu. Nesta guerra, nova mas contudo antiga, todavia nada ficou decidido, nem uma vitória nem uma derrota. É uma guerra em que é necessário combater para criar um mundo de liberdade e de justiça, para devolver os homens a Deus e Deus aos homens.

Vincenzo Vinciguerra

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