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O arqueofuturismo segundo a vulgata fayeniana

July 19th, 2007 · Post your comment (No Comments)

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Guillaume Faye é um dos principais promotores da ideologia racial-identitária que obtém algum sucesso entre os regionalistas apressados em dissolver a nação numa posologia mortal amanhada pelos amos mundialistas.

Há alguns anos, fui, como observador, aos dois “fóruns da identidade” que se celebraram em Paris e em Versalhes. Não conhecendo bem o movimento “identitário”, mas tendo ouvido falar de Guillaume Faye que era então a estrela, nos meios de extrema-direita, decidi-me a ir ouvi-lo, dado que iria dar uma conferência.

Não tinha lido então nada de Faye, não por desinteresse, mas simplesmente porque o entusiasmo que suscitava me parecia ser superficial. Ou bem os seus leitores o admiravam por razões mal explicadas (por eles), ou então o seu discurso era caricatural. Na ignorância em que estava – e uma vez que não ia às reuniões da “Terra e Povo” – decidi ir ver e ouvir.

O espectáculo foi surpreendente… Num fato colorido, o orador vociferava – literalmente – ao microfone durante uma hora. O frenesim do tom, o carácter agressivo da atitude, a mímica tinha algo de irreal. Como se assistisse à performance de um actor ou de um one-man-show. A forma era tão exuberantemente excessiva que ocultava completamente o conteúdo, de resto muito escasso, tão escasso ao ponto de parecer inexistente. Falava-se de imigrantes que se iria rechaçar para o mar em embarcações, embarcações essas que poderiam mesmo vir a encontrar-se no fundo da água (porquê?), de brancos que eram superiores ao pretos, etc. Tinha vindo ouvir uma conferência política ou um simples exercício vocal, onde as palavras se reduziam a sons?

Concluí que tudo aquilo não era muito sério, e que se tratava realmente de um puro espectáculo, ou de um jogo entre o orador e o seu público. Do género: divirto-me a brincar ao pequeno Führer, vocês divertem-se a acreditar nisso, e passamos todo um bom bocado. Tal era efectivamente o caso, uma vez que Faye continuou em seguida a dar as suas conferências (às quais não voltei a assistir), com o que me congratulo uma vez que ninguém deve (ou não deveria) ser impedido de exprimir-se.

Um detalhe despertou-me a atenção, quando a palavra foi dada ao público. Um espectador (é a palavra que convém) faz-lhe cortesmente uma crítica; não me recordo o quê, mas pouco importa, porque o que conta é o tom, a maneira. E vejo então Faye reagir de imediato, num acesso de violência verbal inconcebível. Completamente desproporcionada perante a crítica. E sem nenhuma necessidade, a não ser pela fanfarronada.

Após esses fóruns da identidade, decidi ler pelo menos um livro de Faye. E fui-me informar de qual seria o “melhor”; várias pessoas recomendaram-me calorosamente “O Arqueofuturismo”. Vais ver, disseram-me, é genial. É gigantesco.

Eis aquilo que eu lá descobri.

N”O Arqueofuturismo”, Faye descreve uma sociedade de duas faces, como a ilha do mesmo nome numa aventura de Guy L’Eclair. Em baixo, os arcaicos, cujos chefes seriam guenonianos, em cima os futuristas ou nietzscheanos. Porque nietzscheanos? O leitor médio de Faye não tendo necessariamente lido Nietzsche (não tem tempo, lê Faye), pensará que se trata de uma vaga “vontade de poder”. Vai continuar assim. Mas de qual Nietzsche se trata? Um Nietzsche de pacotilha, sem dúvida, porque Faye não tem nada de filósofo; mas ainda se fosse só isso…

Na tese de Yirmiyahu Yovel, “Os Judeus segundo Hegel e Nietzsche”, Yovel considera que o pensamento nietzscheano da imanência absoluta se junta paradoxalmente à transcendência que ele condena. Boutang já o tinha afirmado; Nietzsche era cristão sem o saber. Mas como vilipendia o cristianismo que assimila a um niilismo onde falsos valores se substituem à vontade de poder, poder-se-ia dizer também – de acordo com a expressão percebida – que seria “judaico-dionisíaco “, como o mostraria a sua admiração por algumas grandes figuras da diáspora. A expressão é paradoxal naquilo em que supõe o exercício da potência e não somente do poder. Ora, exercer um poder – mesmo imenso – não implica uma potência correspondente. Porquê? Simplesmente porque a potência consome energia e que por conseguinte se consome a si própria no seu exercício. Aceita o jogo da morte, da sua própria morte. É o destino exemplar da Grécia e que fez a sua grandeza. Em contrapartida um povo escravo do ressentimento é incapaz dessa grandeza, tendo como corolário a sua sobrevivência indefinida. Está sempre enquistado.

Com os seus pseudo nietzscheanos, Faye põe em imagens uma palavra híbrida, uma transplantação semântica. Os mestres “judaico-dionísiacos” da sociedade arqueofuturista dão pelo seu poder a ilusão da vida e a potência, como se fossem capazes – a seu tempo – de desaparecer. Realmente, as suas realizações efémeras são um ecrã de fumo. Autopetrificam-se com o único objectivo de não morrer, o que é uma forma de obstinação terapêutica. E uma impostura. Mas compreendemos também porque a hubris tecnocientífica e internacional da elite futurista se assemelha muitíssimo à hiper classe de Jacques Attali.

“Ver-se-á esboçar o projecto de misturar homem e animal em vidas-instrumento adaptados às exigências tecnológicas, capazes de trabalhar em meios específicos, de rastejar, evoluir no fogo – ou nas radiações, ou mesmo no espaço.” E glorificar-nos-emos: o homem, dir-se-á, deve transformar-se para continuar a adaptar-se ao meio ambiente que ele transforma. Será, explicar-nos-ão, menos dispendioso para o homem adaptar-se a este meio ambiente que restaurar um meio ambiente adaptado aquilo que ele ainda é”
[ Attali; Dicionário do século XXI, p. 68 ]

“Os nascimentos artificiais em incubadoras, os robôs biotrónicos inteligentes e ” parasensíveis “, quase humanos, as quimeras (síntese homem-animal cuja patente foi registada nos Estados Unidos), os manipulados ou ” homens transgénicos “, os novos órgãos artificiais multiplicando as faculdades, a criação de sobredotados ou de super-resistentes por eugenia biológica positiva, as clonagens etc., tudo isso corre o risco de abalar as faculdades da velha concepção igualitária e sacra do ser humano.”
[ Faye; Arqueofuturismo, p. 107 ]

“Tornar-se-á lícito de ter, com “imagens clonadas”, todas as relações sexuais interditas a um ser humano.” Autorizar-se-á mesmo aos entusiastas as relações com imagens clonadas de menores se nos podermos assegurar que aquilo não requer nem supõe a participação de nenhuma criança real (…). Onanismo e nomadismo. Onanomadismo. ”
[ Attali; Dicionário do século XXI, p. 118 ]

Attali é de resto uma referência para Faye que o menciona várias vezes. O mesmo gosto pela ficção cientifica de cordel (enquanto que a há excelente), mesma fascinação para uma minoria que se constitui em casta e desenvolve em seu único benefício o reino do mercado (incluídos o do sexo e da droga). Faye não tem nada de um revolucionário apesar das suas posturas. Quer pelo contrário manter a sociedade actual com as suas hipocrisias, os seus privilégios, as suas derivações eugenistas. Acentuando os defeitos e os vícios, até ao ponto de ruptura (a guerra civil fantasmática) tão desejado.

Com os seus arcaicos de Carnaval, Faye não compreende por um só instante que uma sociedade tradicional poderia muito bem adaptar-se à técnociência. Onde está a incompatibilidade? Confunde os futuros cristãos da reconquista rural com os Amish. Por último, para se armar em guenoniano, acrescenta um toque esotérico (muito em voga) na transmissão iniciática do conhecimento científico. Mas o que é que a produção de monstros dignos do doutor Lerne tem a ver com um saber e uma tradição primordial? Quer ele dizer que o futurismo seria o esoterismo do arcaísmo? A resposta é que ele próprio nada sabe e está-se nas tintas. O discurso de Faye é heteróclito, decadente, ambíguo e desagradável. Para ele, os Americanos – os que governam – são simples adversários, enquanto que o Islão é o inimigo declarado e que os bárbaros (incluindo os árabes e os pretos) estão dentro dos nossos muros. Em nenhum momento uma resposta satisfatória é dada à questão de saber a quem aproveita a situação. São os mesmos que enquanto ontem abriam as fronteiras denunciando o racismo dos pequenos brancos, hoje se fazem os promotores de uma sociedade de Apartheid.

O sonho do regresso ao feudo no âmbito de uma sociedade neo-medieval pós apocalíptica vai beber a uma contra-utopia mortífera, simples espelho que engrossa, deformando as nossas sociedades cada vez mais desiguais. O feudo será com efeito o gueto, a tradição – do folclore. A hiperclasse ociosa, entre dois cocktails ou duas conferências sobre o “dever da memória” virá ao Domingo ver os últimos tradicionais fechados no Parque Católico da Vendeia, com o manequim de cera do visconde num museu da Velha França. E para dar alguma excitação à terceira idade, excursões em autocarro blindado serão organizadas sobre as estradas balizadas do distrito 93, onde será arrumada a “escumalha” já tão cara ao nosso presidente.

Reflectindo bem, a imigração em massa – após a exploração nas fábricas da primeira geração – terá servido pelo menos para alguma coisa. Por um lado “em escurecer” os pretos, agora que cessam de ser bons negros, para se tornarem em maus negros (como o explica Dieudonné na sua conferência de imprensa do 30 de Maio de 2007). Por outro lado, fazer emergir o poder visível do super-branco, zeloso do seu exclusivismo. Aquele que pode falar de “racismo anti-branco” abertamente na imprensa, sem temer a virtuosa indignação pública em que o tribunal é qualquer um. Não é o pobre pequeno branco, completamente manso. Quem é então? O Branco mais branco que o branco (sempre sem mácula graças à última lixívia), o que adere à visão do mundo de Faye. Pode, dependendo do caso, deter um poder real ou brincar ao idiota útil, insubmisso em papel lustrado, diminutamente subversivo.

Guy Mosjoen

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