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O Capital Totalitário

August 27th, 2007 · Post your comment (No Comments)

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Lapidarmente um Estado Totalitário é aquele que ambiciona o completo controle e a total absorção da sociedade civil.

Se juntarmos a isto a “dominação de um partido de massas dirigido por um líder carismático, uma ideologia oficial, o monopólio dos meios de comunicação de massas, o monopólio das forças armadas, um controlo policial terrorista e um controlo centralizado da economia” (segundo Brzezinski), temos então aquilo a que vulgarmente chamam regimes Fascistas ou Comunistas.

Derrotadas pela marcha da história, segundo a historiografia oficial, estas duas bestas negras gémeas e eis-nos mergulhados em pleno fim da história, usufruindo em pleno da panaceia universal, o capital. A pergunta que se impõe é a seguinte: Como é que o capitalismo conseguiu impor-se de forma totalitária sobre a grande maioria do globo?

Socorramo-nos das suas próprias ferramentas de análise para responder à questão. O factor organização de massas dirigida por um líder carismático é por si só negligenciável, é um factor cíclico na história, a formula de partido corresponde apenas a uma fase de organização do tecido social, ontem poderia ler-se exército, horda ou ordem, amanhã poderão surgir outras roupagens. O mesmo vale para o monopólio das forças armadas.

Já com o controlo dos mass media, das forças repressivas altamente especializadas, e da economia não acontece o mesmo. São directamente resultantes do predomínio capitalista, se bem que isoladas tenham feito a sua aparição anteriormente. E anteriormente a quê? Ao modo de produção capitalista que é o pai do sistema actual. De facto o Estado de tipo ocidental provem da progressiva divisão do trabalho e é em toda a sua arquitectura jurídico-social uma criação da mentalidade e dos interesses da classe dominante, e só a eles serve.

Sendo assim o que é que esteriliza a revolta de todos aqueles, a grande maioria da população, a quem o capital explora?

Em primeiro lugar a extrema plasticidade da ideologia capitalista que consiste “no maior lucro ao menor custo”, sendo por isso adaptável a uma panóplia quase infindável de variações daquilo que é na realidade um regime único multipolar.

De seguida vem a chamada naturalização da ideologia, que consiste em fazer tomar às massas como um facto de senso comum, como algo natural à evolução humana, e aqui entra o controlo dos mass media, aquilo que na realidade é um pressuposto ideológico, o modo de vida do consumidor-eleitor. Através do modelo educacional-cultural difundido são extirpados os últimos vestígios de racionalidade na consciência do explorado. Ele tem, ele deve sentir-se feliz, se tal não acontece há uma vasta farmacopeia de que se pode socorrer a fim de “funcionar” normalmente.

No que diz respeito à repressão ela assume várias formas, temos a criminalização da dissidência politica, verdadeiro show jurídico-policial–mediatico, a ridicularização da mesma baseada em pressupostos psiquiátricos e sociológicos, e por fim a compra de elementos pretensamente revolucionários que a isso se prestem, a quem doravante quase tudo é permitido desde que aceitem integrar o sistema, e a quem não faltam altos cargos e posições rendosas.

Uma última palavra neste tópico para os chamados partidos extremistas que a mais das vezes nada mais são que instrumentos de recuperação do sistema que a contento ora os lanceta ora os deixa inchar, como abcessos tolerados, válvulas de escape e bodes expiatórios, à vez. Quantos desses já não vimos recordando os seus pecadilhos de juventude, hoje ferozes guardiães da moral burguesa.

Temos por fim o controle da economia, e aqui é que bate o ponto. A não admissão por parte de sectores anti-sistema de que o que está em causa não é o pessoal politico mas a própria conformação do Estado, tem levado a lesivos equívocos.

Para todos os efeitos o Estado é o capital, não só porque é a sua matriz, porque por ele é controlado através da grande finança, mas também e essencialmente porque é esse o modo de produção que o estrutura. Só assim se explica que o Fascismo e o Nacional-socialismo revolucionários tenham sido eliminados pelo capitalismo a quem permitiram a continuação da existência, e que a experiência soviética tenha descambado num capitalismo de Estado, através da sua burguesia burocrática. Só mudou a fórmula patronal. É necessário lembrar-se que a posse real difere da jurídica.

Quem possui algo é quem em ultima analise a frui e determina o seu destino. Há um paralelo evidente entre a propriedade colectiva na mão dos burocratas que decidiam em nome da comunidade e os gestores de empresas que só teoricamente dependem duma multitude de accionistas. Isto é tão mais verdade quanto mais disperso é o capital.

A grande vantagem do capitalismo é permitir a renovação das suas elites condicionando as mentalidades e o sistema educativo para que produza sujeitos conformes à sua perpetuação. Com excepção dos directos beneficiários deste autentico sistema de castas semi-fechado a mobilidade social ascendente é muito reduzida, sendo compensada pela alienação consumista propositadamente massificada e a crédito. Dupla vantagem portanto, embrutecimento e dívida que alimenta o sistema mantendo o cidadão na sua dependência.

Das três grandes funções estatatais, a política, a administrativa e a repressiva, já só são exercidas as duas últimas. O Estado gere e reprime, não faz politica.A suposta morte das ideologias é devida ao facto de que o capitalismo já se impôs como a ideologia universal, logo já não há supostamente lugar para modelos alternativos. Toda a suposta opção politica é condicionada pelos ciclos económicos e seus agentes. O capitalismo julga ter resolvido o problema do ovo de Colombo. Não há qualquer necessidade de um estado único mundial neste estágio, uma vez que tendencialmente todos os Estados sejam capitalistas, obedecendo às mesmas normas e tendo por isso a sua autonomia coarctada.

De nada adianta portanto a conquista do Estado – máquina administrativa, se for para manter o capitalismo, ainda que mitigado, ou mesmo na sua pujança máxima, o caso austríaco é nisso flagrante. Só lutando pela eliminação do modelo capitalista à escala global, agindo cada um localmente, se lhe poderá pôr um fim. Um sistema alternativo verdadeiramente socialista, descentralizado e popular poderá constituir um novo élan revolucionário.

Não se trata aqui de meras lutas sociais, ou de um qualquer reformismo. O sistema gere bem estes factores, ora os atende ora os rechaça conforme o equilíbrio de forças, mesmo mudando o partido no poder, até mesmo a configuração do regime, fica o capitalismo. Ainda que momentaneamente tolhido, logo reganhará posições, pelo suborno e pela acomodação.

As lutas reivindicativas são um bom exemplo do que se disse atrás. Já a grande maioria dos estados capitalistas as tolera como válvula de escape, porque sabe que elas se esgotam em questões corporativas que muitas vezes são utilizadas habilmente pelo sistema para lançar classe contra classe, dividindo para reinar, agitando o espantalho de imerecidos privilégios.

Só uma doutrinação paciente e lúcida das massas e um dialéctico aproveitamento das suas lutas e anseios, apoiando-as e canalizando-as progressivamente para fins menos imediatistas, pelo menos no que diz respeito aos seus elementos mais avançados, pode despoletar um verdadeiro movimento revolucionário.

É absolutamente necessária a constituição de um escol de agitadores-propagandistas que acompanhando o pulsar da sociedade nela constituam bolsas de influência, captando os elementos mais aptos, formando-os e assim aumentando a amplitude do trabalho politico num sistema em espiral.

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