Paquete de Oliveira
Estamos num país em que parece fácil dizer o que está mal. Estamos num país em que tem sido difícil resolver o que está mal. E se situarmos esta incapacidade de ter resolvido, pelo menos em grande parte, «aquilo que está mal», na área política da governação, é fácil perceber os enganos e desenganos que têm contribuído para a frustração e o clamor de pouca confiança manifestados pelos portugueses.
Obviamente que um grande equívoco é situar a questão apenas na área da governação. São muitos outros os responsáveis por este arrastar das soluções. E nos mais diversos sectores. Mas todos procuram escapar, por aqui ou por acolá, às suas responsabilidades. Politicamente é nos governos que focalizamos a grande culpa.
Fazem parte desse enunciado genérico do que está mal o atraso económico, social, cultural do país, com 20% da população portuguesa a viver na pobreza, a contrastar com uma percentagem elevadíssima de concentração de riqueza; uma classe média sufocada por impostos que sobem e não descem; carreiras profissionais congeladas sem autorização de progressão; ordenados que perdem anos a fio valor real; pensões de reforma que pouco podem garantir aos familiares mandar cremar os corpos dos falecidos; custos de despesas primárias e indispensáveis numa escalada ascendente; gastos na saúde e ensino cada vez mais dispendiosos… Enfim, a lista poderia continuar, mas são muitos aqueles que a sabem de cor.
Para quem tem acompanhado estes 30 e tal anos da governação em democracia pode facilmente fazer o balanço entre o cabaz das promessas daqueles que aspiram a ser poder e o saco roto do cumprimento dessas promessas quando são poder. E é nesta jigajoga de quem promete e quem faz, aliás muito democrática, que se tem cavado o desengano do povo.
Uma razão forte do regime democrático é gerar projectos alternativos de governação. Na democracia portuguesa, com leves ajudas de CDS, PSD e PS, são os partidos que têm protagonizado o conjunto de promessas alternativas. No período das realizações, porém, ambos têm concitado a reprovação dos eleitores que, por sistema, votam num ou noutro, mais por castigo do que por opção de alternativa.
Provavelmente, acusar-me-ão de estar a desfocar superiores valores de democracia. Fique a sinceridade de manifestar a minha preocupação pelo círculo vicioso a que nos tem levado a jigajoga do processo eleitoral. Quem está não consegue fazer, quem não está promete vir a fazer.
Há porventura realidades que nos custam a enfrentar. Não estamos apenas num país com 20% de pobres. Estamos num país pobre. Pobre de recursos.
Estranhamente, um país com pobres a mais e ricos a mais.
As soluções procuradas no fundo do tacho, como por exemplo os impostos, estão esgotadas. Mas se se fala naquelas que estão fora do tacho, ai que vem aí a revolução!
O drama deste país pareceu- -me muito bem glosado no «sketch» de os «Gato Fedorento» sobre os 3%, no seu último programa. O que é que nos custou chegar aos 3%? O aperto dos cintos, os nascimentos em Badajoz ou nas ambulâncias, as escolas das aldeias a fechar, os sindicatos em justas reivindicações, as corporações a protestar pela perda de regalias, a saúde e o ensino cada vez menos gratuitos? Como acontece em humor inteligente, não é a apologia do sucedido, mas é a caricatura. Não elogio, constato.
Como nos vamos organizar para poder continuar, por direito e convicção, e já agora com satisfação, numa Europa, que hoje se espera confirmada (ou conformada?) com a assinatura do «Tratado de Lisboa»?
Fonte: Jornal de Notícias



