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O movimento punk e o Nacional Bolchevismo

September 10th, 2007 · Post your comment (No Comments)

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limonov.jpgO Mark Ames (do jornal Exile, ndt) pediu-me para escrever acerca das ligações do Partido Nacional Bolchevique ao movimento punk. Vejo-me forçado a olhar para o meu passado, apesar do facto de me encontrar muito mais envolvido com o presente, por culpa do Mark.

Cheguei à cidade de Nova Iorque, vindo da União Soviética, em Fevereiro de 1975. Precisamente no ano em que o movimento punk surgiu. O meu primeiro contacto com o meio punk foi através duma fanzine que encontrei em 1976 que dava pelo nome “Punk”. Era uma publicação do género da samizdat, a preto e branco, em formato A4, editado em fotocopiadora. Um dos seus editores tinha um nome estranho – Legs McNeil. O nome “Legs” chocou-me. A revista tinha no seu interior muita banda desenhada e muitas caricaturas. Lembro-me de uma em que uma rapariga negava o convite de um gajo qualquer para dançar. Dizia ela, “Desculpe mas não, só danço com maricas.”

Os imigrantes russos não compreendiam a minha excitação quanto à revista “Punk” (mostrei-a a toda a gente), acharam que era um bocado de lixo. E era, mas o novo movimento afirmava intencionalmente o lixo como uma ideologia. Um ano mais tarde prosperavam as lojas punk por todo o Lower East Side, entre elas uma loja que dava pelo nome de “Trash and Vaudeville”, vendiam roupa.

A revista “Punk” publicitava um novo género musical. “Os melhores grupos da cidade” diziam eles. Fui dar uma vista de olhos no CBGB, um buraco negro entre as ruas Bowery e Bleeker. Em 1975 estava praticamente vazio. Dois anos mais tarde o CBGB era o local mais badalado dos Estados Unidos.

Conheci a Júlia Carpenter, na altura com 21 anos, filha de um oficial do FBI. Trabalhava como governanta na casa do Peter Sprague, nr 6 na Sutton Square, em Manhattan pois claro. A melhor amiga da Julie era a Marianne Flint, namorada do Mark Bell. A Julie apresentou-nos. O Mark Bell era o baterista do Richard Hell. O Richard Hell era uma figura destacada da cena musical punk. Na realidade foi o pai do punk com o seu álbum “Blank Generation”. O Mark ofereceu-me esse vinyl, como prenda. Também manifestou o seu repúdio pela minha t-shirt negra e simples e trouxe-me uma t-shirt do Richard Hell para a substituir – branca com um mapa das linhas de metro. Disse-me que o Richard Hell tinha dado muitas entrevistas com aquela t-shirt vestida. A t-shirt tinha alguns cortes aqui e ali.

Na altura nem eu nem o Mark Bell compreendiamos ainda a importância do Richard Bell. Não só o álbum “Blank Generation” foi o primeiro álbum dum tipo musical completamente novo de protesto juvenil, mas o Richard Hell influenciou também o Malcolm MacLaren, que posteriormente criou os Sex Pistols, quando este regressou a Londres depois de uma estadia em Nova Iorque. Agora sabe-se que MacLaren ficou muito impressionado com a música tocada por Richard Hell, e quis que os Sex Pistols tocassem algo semelhante.

Olhando para mim naqueles anos, com a t-shirt com as linhas do metro, julgo que era uma t-shirt simbólica, um objecto sagrado, que me unia ao punk. Os dois livros que escrevi em Nova Iorque, “It’s me, Eddie” em 1976 e “Diary of a Loser” (1978) são escritos com uma estética punk. “No doubt about that I fuck all of you, fucken into mouth beaches, go all to cocks!” – é o final do “It’s me, Eddie”. Se isto não é punk, o que é?

Depois o Mark Bell foi convidado para integrar os Ramones. Encontrei-me com os Ramones muitas vezes, mas o meu destino obrigou-me a ir viver para Paris. Quando os Ramones vieram à Europa em digressão e passaram por Paris, encontrei-me com eles no hotel “Meridian”. Das poucas vezes que visitei Nova Iorque em todas visitei a Marianne e o Mark Bell, ou Marky Ramone, depois de alistado pelos Ramones.

Os meus interesses mudaram da literatura para a política no final dos anos 80. Mas, quando fundei o Partido Nacional Bolchevique em 1993, contactei com Egor Letov, o maior ídolo punk russo de todos os tempos. A bandeira Nacional Bolchevique foi mostrada em público pela primeira vez num concerto do Egor Letov no clube “Armed Forces” em Moscovo. Era chocante, com quatro metros, um monstro vermelho, negro e branco pendurado no palco. Era certamente irritante, provocatória, era extremamente punk a nossa bandeira. Actualmente ainda é irritante, provocatória e ultrajante. Egor Letov foi portador do cartão de militante número 4 do Partido Nacional Bolchevique. Creio que esse cartão poderia mesmo ter sido atribuído ao Sid Vicious ou ao Johnny Rotten (o Johnny Rotten de 1977) caso aceitassem tal filiação.

Letov, tal como todos os artistas punk, provou ser inconsistente, caprichoso e imprevisível. Chateou-se connosco em 1996, mais tarde regressou ao partido e depois partiu novamente para a sua solidão punk. Por vezes afirma ser de esquerda e Nacional Bolchevique, outras dá a entender que não nos conhece. Mas a sua presença na liderança do Partido Nacional Bolchevique trouxe ao partido milhares de novos recrutas com o passar dos anos. Nem todos se tornaram em árduos activistas, alguns limitaram-se a passar pelo partido, mas os punks foram o esqueleto da organização do partido nos primeiros anos da nossa existência.

A negação vociferada dos valores da civilização, a estética grotesca, de lixo, de migalhas, pedindo emprestada alguma simbologia de direita, eram características comuns com movimento punk nova iorquino dos anos 70, bem como dos primeiros Nacional Bolcheviques nos anos 90. Além do Egor Letov foram incorporados no PNB dezenas de músicos violentos. “Pauk” Sergei Troitski dos “Korrosia Metala”, Dmitry Reviakin dos “Bando f Fours” e dos “Day of Donor”, bem como a minha defunta esposa Natasha Medvedeva a o (também defunto) líder dos “Pop Mechanics” Sergei Kuriokhin contavam-se entre os Nacional Bolcheviques.

O jornal do Partido Nacional Bolchevique, “Limonka”, era nos anos 90 o jornal mais radical e punk do mundo. Com slogans como “Comam os ricos!” ou “Um bom burguês é um burguês morto!” ou ainda “Capitalismo é merda!” estávamos a cumprir a boa tradição punk, ou não?

O convite oficial para filiação no PNB tinha a frase de ordem: “Não engulas o sapo! Ingressa no PNB!” com a ilustração de um homem com a caveira exposta, vestido a rigor com gravata e com a braçadeira do PNB. Dezenas de escritores foram angariados com o aspecto radical do jornal “Limonka”. Alguns dos trabalhos desses escritores estão disponíveis num livro que dá pelo nome de “Geração Limonka”, alguns nomes tornaram-se bem conhecidos como os de Zarhar Prilepin, autor do romance “Samkia”, acerca da vida e morte de um activista do PNB, ou Alexei Tsvetkov, autor de inúmeras obras.

As acções do PNB, embora não violentas, utilizam a estética punk, por exemplo a ocupação do Teatro Bolshoi em 7 de Maio de 2004, o dia em que Putin o ia inaugurar. Estava agendada uma visita de Putin ao Bolshoi nessa noite, portanto os Nacional Bolcheviques subiram ao palco e ocuparam o púlpito do presidente. Queimaram foguetes como se fossem hooligans de futebol, ondearam bandeiras e gritaram palavras de ordem. Foi belo! Foi punk.

Portanto, caro amigo Mark Ames, tens toda a razão acerca do teu palpite acerca das origens punk dos Nacional Bolcheviques. Mas a história do Partido Nacional Bolchevique continua. Creio que um dia o PNB será minuciosamente analisado e escrutinado. Serão escritos livros muito pesados acerca do “PNB e o movimento punk”. Limitei-se a fazer um esboço.

Edward Limonov

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