Rainer Daehnhardt
“Os Historiadores nos fazem ver estes
Bosques dando asylo aos trahidos
valerosos Lusitanos. Aqui o insigne
Capitão Viriato, que tantas vezes abatera
O voo das Águias Romanas, sendo,
Por obra de treição, derrotado, se
Recolheu a estas Matas, e achou nellas
O extremo asylo, escapando à vergonha
de entregar, e por aos pés de seus
Adversários a sua Espada invicta.
Aqui a deixou aos Portuguezes,
Herdeiros que succedêrão no valor
Ao povo guerreiro, que ele Capitaneara.”
in DESCRIPÇÃO DA GRANDIOSA
QUINTA DOS SENHORES DE BELLAS,
Domingos Caldas Barboza, Lisboa, 1799
No dia 21 de Junho de 1982, pelas 17 horas e 2 minutos, troou um tiro de canhão pelo vale de Belas. Um soldado do Regimento de Infantaria 1, disparou a única peça de artilharia que voltou de Alcácer-Quibir! Enquanto os ecos do tremendo estrondo ainda vibravam no ar e a grande nuvem de fumo se espalhava, uma grande multidão soltou a sua tensão, gritando e aplaudindo um feito invulgar.
Num dia especial, em que um solstício e um eclipse lunar se juntaram, um grupo de pessoas prestou homenagem às suas mais remotas raízes.
O “falhanço” do 25 de Abril obrigou a lusa gente a relembrar-se das suas origens. Só assim conseguiram fazer face ao desvirtuamento de tantas esperanças.
Com a ajuda de centenas de voluntários militares ergueu-se nos bosques de Belas um dólmen iniciático. Para o efeito, serviram-se somente de pedras cortadas pela natureza há milénios. Algumas de muitas toneladas. A porta do dólmen está orientada em direcção ao primeiro raio solar, que entra pelo corredor e atinge o centro da sala octogonal. O “chapéu” do dólmen serve de base a uma escultura de bronze, de dois metros e meio, de um majestoso javali, representação ancestral do Deus Endovellicus.
O entusiasmo de todos os que assistiram à inauguração deste Monumento às Origens da Lusitaneidade, só teve paralelo na alegria com que todos os voluntários participaram nesta tarefa, que chegou a ser considerada impossível de realizar.
Os meios foram os mesmos que já existiram há milénios. Pau e corda, força muscular e Fé em Deus. Ouviram-se gemidos e palavrões, mas nada os conseguiu parar! Até os jardineiros dos arredores quiseram participar, plantando arbustos de loureiro à volta. Os bombeiros vieram com os seus carros de água para regar as estradas de terra batida e as plantas recentemente colocadas. Cerca de trezentas pessoas estiveram envolvidas neste processo, durante vários meses. Todos voluntários. Ninguém pagou nada a ninguém. O vil dinheiro, sangue de Mammon, sem o qual se diz que hoje nada se mexe, foi excluído. Tudo nasceu de forma pura, baseado apenas no feliz casamento do idealismo e força de vontade.
Toda a assistência da inauguração se apercebeu de que se estava a regressar às origens, em vias de se perderem para sempre.
Um alívio perante a insatisfação geral fez-se sentir e muitas vozes se ouviram, reclamando orgulho em ser português!
Militares e diplomatas de outras nações de origem celta, estiveram presentes. Todos os ramos das Forças Armadas Portuguesas mandaram seus representantes em farda de gala.
O Governo de então, embora devidamente informado, brilhou pela ausência.
Sentiu-se que algo estava a ser acarinhado e que todos se identificavam com o respeito pelas origens!
O Cardeal Patriarca agradeceu o convite, mas não pôde estar presente devido a compromissos prévios, mas desejou tudo de bom à iniciativa.
O padre da freguesia aconselhou os seus fiéis a não participarem nesta homenagem às origens porque considerou a prestação de respeito a uma divindade lusitana um acto de heresia.
Porém, ninguém de entre os que assistiram compartilhou desta interpretação e foi com muita atenção que ouviram as explicações acerca dos lusitanos. Os militares presentes reconheceram em pleno serem defensores da lusitaneidade e os representantes actuais dos guerreiros outrora liderados por Viriato, que fizeram tremer os globalistas de então.
O dólmen foi levantado de maneira a que a sua nave estivesse por cima do cruzamento de dois braços de água, que descem o Monte Machado, em diferentes profundidades. A força telúrica que aí ocorre é tremenda. Uma única pessoa conseguiu manter-se no interior da nave do Dólmen durante uma rotação da terra. Muitos outros o tentaram. Um saiu branco, como a cal da parede, aterrorizado e a suar. Outro desmaiou e teve de ser retirado.
A busca do caminho da iniciação, no seu interior, não é tarefa fácil para ninguém!
Na cultura dolménica, a sala megalítica era usada como templo de reflexão. Todo o dólmen era coberto por terra. A porta era fechada com uma grande pedra que apenas se tirava após o fechar do círculo do sol. A escuridão era total. A luz só poderia vir do interior do examinado. Alguns escolhidos para a iniciação morriam, mas pelo menos tentaram cumprir o seu papel dentro da colectividade. Outros enlouqueciam. Eram bem tratados e respeitados. As suas famílias e os seus bens recebiam protecção e ajuda de todos, pois o seu chefe familiar havia tentado. Errar é humano, e falhar não era mal visto, apenas o não tentar.
Viriato foi um dos escolhidos que suportou a iniciação. Daí lhe veio a força e a coragem. Sucumbiu à traição; porém, ainda hoje é venerado e exemplo para muitos. Combateu durante nove anos os invasores, causando-lhes acima de 25 mil baixas, mais do que qualquer outro adversário de Roma de então. Mas Viriato não foi Rei, apenas um pastor guerreiro, democraticamente escolhido. Se tivesse sobrevivido às sucessivas invasões, teria regressado em glória para ocupar o lugar de um lusitano no meio de muitos outros. Ainda está vivo na nossa memória colectiva.
Investigadores, dos dois lados do Atlântico, já vieram com aparelhos de medição dos mais estranhos conceitos, para medir as forças do dólmen e para o comparar com outros.
Mais interessante porém é que, de vez em quando, surge uma vontade comum a muitos, para celebrar algo considerado importante, neste dólmen. Assim, podemos ler no Correio da Manhã, do dia 3 de Janeiro de 1992 (na capa e nas duas páginas centrais), num artigo da autoria de Vítor Mendanha: «Portugueses evocam o passado. Entraram em 1992 a exorcizar a Europa. PATRIOTAS CRITICAM A INTEGRAÇÃO NA CEE». Mais de uma centena de jovens cantaram o hino nacional nos primeiros minutos daquele ano, empunhando velas acesas. Iniciando uma cerimónia totalmente diferente das milhares de festas com que os portugueses se despediram de 1991, e entraram naquele ano que nos integrou na Comunidade Económica Europeia. O canhão disparou para exorcizar a integração na CEE e foi lembrada a perda de independência, motivada pela integração de Portugal na Comunidade. Um jovem subiu ao dólmen para limpar os olhos do javali, só que «olhos de prata não choram» (VM).
O anfitrião evocou a memória de cada um dos Reis de Portugal, lembrando os seus principais feitos e acrescentou: «O império russo acabou por sumir-se e o império americano também desaparecerá. Estejam conscientes disso. Algo de grande gravidade vai acontecer, que terá consequências para muita gente. Mas haverá sobreviventes, os quais serão guiados por alguns e, entre esses que guiarão os outros, contam-se os portugueses, sobretudo os açorianos, que terão um papel muito significativo».
O acontecimento foi por muitos considerado um remar contra a corrente. Convictos de que a submissão de Portugal a uma colectividade artificialmente criada apenas traria benefícios e que a benesse americana não teria fim, tornou-se difícil compreender a muitos leitores deste artigo o que estava a passar-se nos bosques de Belas. Porém, quem assistiu identificou-se com a iniciativa e tomou parte nela com grande alegria. Muitos, desta centena de jovens, eram estudantes de Direito, hoje já advogados ou juízes. Todos se devem lembrar de terem feito parte de algo de peso nacional.
Anos depois, em 24 de Agosto de 2003, deu-se outro evento de relevo neste Monumento às Origens da Lusitaneidade.
Convidaram-se cerca de 70 pessoas para assistir com amigos ou familiares. Perto de duas dúzias agradeceram, mas não puderam estar presentes devido a compromissos já assumidos; porém, cerca de meio milhar de pessoas compareceram. Ouviram-se explicações acerca dos lusitanos, música celta e o som angélico de harpa, tocada por cima do dólmen. Uma jovem cantou primarissimamente o fado e um grupo de danças folclóricas deu o seu melhor. Todos eram voluntários e participaram com alegria. Nas copas dos carvalhos, por cima da multidão assistente, estavam manequins, vestidos com armaduras quinhentistas, para nos lembrar de que tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, é observado pelos nossos antepassados. Só respeitando as nossas origens perpetuaremos a nossa espécie. Tudo o que temos e o que somos é o que os nossos pais nos souberam transmitir, mais o que soubermos acrescentar.
Cada geração não é mais do que um elo duma longa corrente de evolução de um povo. Uma vez que a força máxima de uma corrente é a do seu elo mais fraco, torna-se óbvio que o perigo do nosso desaparecimento reside precisamente no momento em que se deixa de respeitar os antepassados.
Devemo-nos comportar de forma que os nossos antepassados se orgulhem de nós.
Só assim poderemos cumprir as nossas razões de existência!
É nosso dever, entregarmos um mundo saudável à próxima geração pois só assim poderemos cumprir a razão da nossa existência.
O facto de milhares de pessoas já se terem apercebido disso nos bosques dos carvalhos sagrados de Belas é estimulante e acorda a esperança no futuro.
(Via Projecto Grifo)


