Adriano Moreira – A partir de Setembro de 1997, em finais do século XX, a UNESCO, pela sua Division of Foresight, Philosophy and Human Sciences, organizou uma série de colóquios versando um debate global sobre desafios-chave na entrada do milénio. Foi de alta qualidade o conjunto de cientistas, artistas, filósofos, comentadores, que, de um ponto de vista interdisciplinar, contribuíram para o êxito da iniciativa que mobilizou as atenções de todas as áreas culturais.
Um volume de referência, com o título The Future of Valeurs – 21 ST – Century Talks (2004), editado sob a direcção de Jeróme Bindé, divulgou as várias contribuições. Um volume que merece ser relembrado quando e sempre que a identidade e futuro europeus sejam submetidos à prova aleatória das eleições, mas talvez pouco atractivo para os responsáveis pela educação que olhem para as humanidades com a displicência que lhes merecem matérias pouco reprodutivas do ponto de vista da economia de mercado. Ao ilustre director-geral da UNESCO dessa época, Koïchiro Matsuura, pareceu que esse não era o ponto de vista mais aceitável, e naturalmente considerou errada toda a orientação governativa que ignora a urgência de consolidar o tecido cultural da sociedade civil europeia, pressuposto de qualquer mobilização séria para a unidade de projecto e de intervenção num mundo em mudança acelerada.
Um corolário desta justificada inquietação foi a organização dos estudos sobre a preservação do património imaterial de cada uma das nacionalidades envolvidas no processo europeu, parcela do crescente multiculturalismo de que a UNESCO fez um dos objectos principais do seu programa. Os efeitos colaterais incluem um crescente desafio ao clássico objectivo dos Estados ocidentais, visando fazer coincidir uma Nação com um Estado, uma coincidência posta em dúvida sempre que as migrações descontroladas fizeram emergir fenómenos de multidão, que exigem tempo e política para preencher o largo espaço de descaso que envolveu a novidade.
As paixões culturais das origens dos migrantes em conflito eventual com as paixões da comunidade que os recebe, também fazem parte das causas de confrontos e quebras de paz que vão acontecendo. Como foi sublinhado no encontro, a exaltação cultural das origens, designadamente quando crenças religio- sas estão envolvidas, podem encaminhar a fantasia da pureza para proximidades do racismo. São explosões de violência relacionadas com o multiculturalismo em progresso que levam muitos responsáveis pela segurança a advertir que são inquietantes os sinais de que cada vez mais se enfraquece a possibilidade de substituir a lei da força pela força da lei.
Isto tanto nas ainda consideradas relações internas como nas relações internacionais, porque o globalismo apaga fronteiras com rapidez que parece até agora incontrolável. É justamente a problemática inquietante da substituição da lei da força pela força da lei que actualiza a questão que Jérôme Bindé enunciou como a necessidade de ir em busca do tempo perdido, isto é, em busca de uma ética de futuro. A disfunção de relação deste encontro das áreas culturais com o tempo que vai fazendo a sua obra sem contemplações pela ausência de regulação, de quando em vez faz soar os alarmes da violência, enquanto as atenções de curto prazo das instâncias governativas se concentram nas intervenções tecnológicas, no imediato que os períodos eleitorais curtos comandam, com a lógica financeira a presidir ao processo, com a teologia de mercado a fornecer os padrões do êxito e do desastre, e com o tecido cultural a sofrer as rupturas por onde se perde a confiança. O debate eleitoral europeu decorre sem referência de notar a esta questão básica: a quebra dos valores da sua identidade, que incluem a liberdade, a igualdade, a fraternidade, também a produtividade, mas que foram afectados pela crise da justiça formal e material, pela conflitualidade do pluralismo, pela quebra da confiança, pela indefinição da tolerância, pelo enfraquecimento da esperança.
Com a devida vénia ao Diário de Notícias.



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