Luís Naves
A relação entre Estados Unidos e Rússia está a azedar rapidamente, na sequência da proclamação da independência do Kosovo. Ontem, o secretário de Estado adjunto norte-americano, Nicholas Burns, acusou o Kremlin de “cinismo” e de “actuação pouco cooperante”. Por seu turno, os russos também subiram o tom da retórica, com ameaças de recurso à força, caso a UE e a NATO “desafiem” a ONU.
Ontem, o Presidente russo, Vladimir Putin, criticou a independência do Kosovo. Na sua opinião, esta constitui um “precedente horrível”, com consequências imprevisíveis, que vão durar “dezenas” ou até “centenas de anos”. Este processo, acrescentou Putin, “faz voar em pedaços o sistema de relações internacionais”. Para o líder russo, os ocidentais serão um dia vítimas do problema, que funcionará como “um pau de dois bicos”.
Este clima a lembrar a antiga guerra fria acentuou-se no dia seguinte aos incidentes de Belgrado. Um grupo de radicais, à margem de uma gigantesca manifestação pacífica, atacou a embaixada dos Estados Unidos (entre outros alvos) e tentou deitar-lhe fogo, destruindo parcialmente as instalações. O episódio provocou um morto e 118 feridos. Washington já anunciou que vai reduzir o pessoal da embaixada, por não confiar na capacidade das autoridades sérvias de fornecerem a necessária segurança aos seus diplomatas.
Apoiante da Sérvia, a Rússia não esconde a irritação: “Se a União Europeia adoptar uma posição unida [sobre o reconhecimento do Kosovo] ou se a NATO ultrapassar o seu mandato no Kosovo, estas organizações vão desafiar a ONU e nós [Rússia] vamos também partir do princípio de que devemos utilizar uma força brutal para que nos respeitem”. Esta foi a citação atribuída ontem pela agência Interfax ao representante de Moscovo junto da NATO. Em linguagem pouco diplomática, o embaixador Dmitri Rogozine acrescentava não ter dúvidas de que a NATO se prepara “para instalar bases” no Kosovo.
A UE não tem posição unida sobre o reconhecimento e a NATO não mostra sinais de ultrapassar o mandato, mas esta retórica bélica não se ouvia há anos. Para piorar o cenário, prosseguem negociações entre polacos e americanos sobre a eventual instalação de um sistema de escudo anti-míssil dos EUA na Polónia, facto que Moscovo observa com irritação e alarme, temendo que isto torne obsoleto o seu arsenal nuclear.
Numa entrevista à televisão Fox, o número dois da diplomacia americana, Nicholas Burns, acusou Moscovo de manter uma “política cínica”, no que respeita ao Kosovo. Quando o entrevistador lhe perguntou se a Rússia estava envolvida na violência de Belgrado, Burns recusou confirmar a ideia.
Mas a tese do envolvimento russo foi defendida na CNN pelo diplomata americano Richard Holbrooke, segundo o qual a violência na capital sérvia “foi o resultado directo do incitamento de elementos extremistas, apoiados implicitamente e em privado pelos russos”. Holbrooke não é um comentador qualquer, mas um dos negociadores dos acordos de Dayton que puseram fim à guerra da Bósnia.
Ataques semelhantes aos de Belgrado já levaram o Kosovo a reforçar o controlo das suas próprias fronteiras. Por causa da violência inesperada, Bruxelas diz que o acordo de associação entre UE e Sérvia poderá sofrer atrasos. O Presidente sérvio, Boris Tadic, condenou as pilhagens e pediu um inquérito. E o primeiro-ministro Vojislav Kostunica afirmou que a violência “prejudica directamente os nossos interesses nacionais”. Os americanos reagiram com cautela. O porta-voz da Casa Branca, Scott Stanzel, atribuiu o ataque a “hooligans e vândalos”. Segundo disse, “esta não é a verdadeira face da Sérvia”.
Diário de Notícias, 23 de Fevereiro de 2008
