Ferreira Fernandes
José Battló e Pedro Milá tinham de ser riquíssimos e cultos para pedirem ao genial Antoni Gaudí que lhes fizesse as casas - eram de uma burguesia que o resto de Espanha (e Portugal) não tinha no começo do séc. XX. Cem anos depois, a Casa Battló e La Pedrera, ambas no passeio de Gràcia, engolem filas de turistas de boca aberta com Barcelona. Esta e a sua região, a Catalunha, já foram a locomotiva do país, então atrasado e pobre. A cidade era um íman que atraía gente enérgica e a fazia sua: o fundador do clube Barcelona, em 1899, foi o suíço Hans Kamper, que passou a chamar-se Joan Gamper.
Esta semana, o líder do partido catalão ERC, Josep-Lluis Carod-Rovira disse: “Espanha está mijando há 300 anos em cima de nós e quer-nos fazer crer que é chuva.” Carod-Rovira, de 56 anos, quando foi baptizado chamaram-lhe (como ao actual primeiro-ministro, Zapatero) “José Luis”, o seu pai era um carabineiro franquista vindo de Aragão, um espanhol, portanto. Mas, como o fundador do Barça, o líder do ERC passou a chamar-se Josep-Lluis. Apesar de adepto da independência (que quer já em 2014), o ERC é um dos partido da aliança que governa a Generalitat, o Governo catalão - com os verdes da IUV, e os socialistas do mesmo partido do Governo central, o PSOE de Zapatero. O presidente da Generalitat é o socialista José Montilla, que nasceu em Córdova, na Andaluzia. Quando Montilla discursa é em “catañol”, um misto de castelhano e catalão.
No Passeig de Gràcia, pendurados nos candeeiros, intercalados, os cartazes do partido PP ora têm o slogan em castelhano “Las ideas claras”, ora têm-no em catalão, “Les idees clares.” Até os conservadores do PP aceitam o bilinguismo, como os táxis, que ora estão “libre”, ora “lliure”.
No entanto, os partidos catalães estão preocupados com estas eleições de 9 de Março. Tudo está polarizado entre Rajoy e Zapatero, entre o PP e o PSOE. Quando estes dois debateram, houve 13 milhões de telespectadores. Três dias depois, no debate entre os representantes dos sete partidos representados no Congresso, entre os quais os nacionalistas catalães, bascos e galegos, houve 1,3 milhões, um décimo… O histórico Jordi Pujol, do partido catalão CyU, que foi presidente da Generalitat entre 1980 e 2003, chamou a rebate: “A Catalunha reage ou rende-se”. Ou, simplesmente, espera pelo dia 10, quando o PSOE ou o PP, sem maioria absoluta, precisarem de aliados. Raul Font, um colega de partido de Pujol, já disse: “A CyU é uma rapariga que vai para a cama com quem quer que seja.”
Diário de Notícias, 03 de Março de 2008
