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O ano que começa

January 10th, 2008 · Post your comment (No Comments)

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mjnogueirapinto.jpgMaria José Nogueira Pinto

Sendo a América o poder deste mundo, o que nela acontece conta para todo o mundo. Pelo que faz sentido seguir - de perto e atentamente - a campanha presidencial de 2008.

Os sinais das “primárias” são ambíguos, mas deixam claras algumas linhas de análise: entre os democratas vai ser um duelo Obama vs. H. Clinton. Obama joga na novidade, no fresh look, num discurso que pretende ressuscitar a inclusão na Nova Fronteira de J. F. Kennedy, com o simbolismo do primeiro “negro” no primeiro lugar do mundo. Hillary, com a sua racionalidade fria, em ser “a primeira mulher” do mundo. Obama venceu no Iwoa, Clinton no New Hampshire. Equilibram-se; observam-se; atacam-se. Edwards só olha.

Entre os republicanos, a ausência do favorito Giuliani, permitiu o raid John McCain. McCain é um herói americano: piloto de guerra, prisioneiro de guerra, herói de guerra. Com experiência política, uper-class, mulher bilionária, sem histórias maçadoras. No Verão tinha as finanças da campanha em péssimo estado. Agora aparece melhor. Dos outros candidatos, Huckabee não tem audiência fora Chuck Norris e os evangélicos mais ortodoxos; e não sabe nada de política externa; Romney é ambíguo no que é importante; Guiliani snobou Iwoa e New Hampshire.

Mas a corrida está aberta e vai assim ficar até Super Tuesday, 5 de Fevereiro. Lá, sim, voltaremos a falar.

A decisão de não referendar o Tratado não surpreendeu. O argumento da promessa eleitoral do PS não era incontornável e há muito começaram a ouvir-se as vozes de uma versão “pronta a servir” com o fundamento de que um Tratado não é uma Constituição. Uma falácia, é certo, porque como todos sabem e confessam, a constituição passou a tratado para fugir ao risco do referendo, embora em substância mantenha, de modo simplificado, muito do que consagrava a malograda constituição. Valha-nos a semântica…

Também não se esperava dos decisores qualquer valorização da participação dos cidadãos. Noutros momentos, tanto ou mais relevantes, do processo de construção da União Europeia, PS, PSD e o actual Presidente da República dispensaram, por inútil, essa consulta. Por fim, a resistência dos parceiros europeus, temerosos de um mau desenlace, foi decisiva.

Contudo o referendo era importante. Primeiro, porque uma das maiores debilidades da UE tem sido o seu afastamento dos cidadãos, a ignorância e o desinteresse que estes revelam relativamente a um processo de que foram marginalizados pela soberba dos dirigentes e o desprezo dos euro-burocratas. Tornar os cidadãos parte deste processo num momento em que ele se revela tão problemático seria mais do que aconselhável, considerando as inevitáveis e crescentes dificuldades e ameaças na consolidação de uma UE, extemporaneamente alargada e que, apesar do Tratado, prosseguirá a duas velocidades.

Outro folhetim que ameaça prosseguir, sempre da pior forma, é o BCP. Vimos da incapacidade dos seus órgãos sociais e dos seus accionistas para prevenir, gerir e resolver uma profunda crise institucional. Vimos como essa crise se foi parecendo, cada vez mais, com uma crise política no pior sentido: as facções, o predomínio das questões pessoais, o excesso de mediatização, a falta de racionalidade, o vazio de liderança, a luta de protagonismos e a ausência de responsáveis. Vimos como questões menores minaram os pilares de uma instituição financeira, a confiança, a transparência e a estabilidade. Vimos aparecer uma segunda lista para, ao que parece, fazer face a uma presumível tentativa de governamentalização da crise do BCP, em vez de aparecer para fazer face à crise do BCP. Em suma, descobrimos, surpreendidos, que a tal economia de mercado, o tal sector privado que desejavelmente deveria libertar-se desse tal Estado, gordo e asfixiante, segundo a cartilha neoliberal, é capaz de não ser nem tão sólido nem tão eficiente como se supunha. Afinal, talvez o BCP tenha, apenas, reflectido as debilidades nacionais que se distribuem por todos os sectores da vida portuguesa, estando, agora, confinado a uma mera gestão de lucros cessantes e danos emergentes. Uma história sem precedentes mas que, temo, criou irremediavelmente um precedente terrível.

Diário de Notícias, 10 de Janeiro de 2008

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Tags: Internacional

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