Recebemos do camarada Troy Southgate a notícia de que Peter Cadogan tinha falecido, é com pesar que nos despedimos dum anarquista sério e ético que colaborou nas duas revistas embrionárias que deram origem à corrente NR conhecida como Nacional-Anarquismo. Essas revistas foram as Green Anarchy e Alternative Green, Cogan colocava o combate ao sistema acima dos dogmas que travam a colaboração da maior parte dos anarquistas com outras correntes de pensamento contestatário. Peter Cadogan, Presente!
Peter Cadogan foi outrora descrito como sendo “o único contestador profissional da Grã-Bretanha”. Tal descrição tornava-o numa anomalia numa era na qual a autoridade se encontrava escudada com a confiança do povo, algo actualmente inconcebível. O seu género de acção directa, dissidência pública e desobediência civil lançou a primeira pedra na via dos grupos de activismo permanente.
Mas Cadogan nunca se tornou parte do mundo politicamente correcto dos escorregadios grupos de pressão modernos. A sua vida foi uma longa demanda por injustiças às quais resistir e por princípios filosóficos sob os quais basear a sua resistência. Ele protestou contra o armamento nuclear, contra a guerra civil na Nigéria e o aeroporto de Stansted, deslocando-se de um comunismo de linha dura para uma utopia pacifista inspirada nos ideais de William Blake.
Peter William Cadogan nasceu em 1921 no North Easte. O seu pai trabalhava numa empresa marítima de Newcastle, e Cadogan teve uma educação conservadora de classe média. Foi enviado para a escola pública de Tynemouth e em 1941 ingressou da Força Aérea Real, no serviço de socorro a náufragos, cumprindo o seu serviço até ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Em 1943 leu “O Estado e a Revolução” de Lenine e posteriormente recordou que se sentiu “completamente compenetrado” por “uma confiança letal neste livro de autoajuda”. Filiou-se no partido comunista logo depois da sua desmobilização, tornando-se “num dos devotos”. Em 1946 frequentou a Universidade de Newcastle, formando-se com uma licenciatura em História, e posteriormente deu aulas em diversas escolas de Kettering e de Cambridge, ao mesmo tempo que se mantinha activo no seio do partido.
O esmagamento do levantamento húngaro abriu-lhe os olhos. Foi suspenso do partido por apoiar os rebeldes. No ano seguinte escreveu, conjuntamente com o historiador Christopher Hill e o jornalista Malcolm MacEwen, um relatório minoritário do partido atacando “a concentração do poder num pequeno corpo de funcionários políticos a tempo inteiro”, razão pela qual foi denunciado por Moscovo. Abandonou os comunistas e ingressou no Partido Trabalhista. Pouco depois foi expulso dos trabalhistas por ter-se juntado a um grupo trotskista proscrito.
Em 1960 já se tinha desencantado com o marxismo. Isto coincidiu com a fundação, por parte de Bertrand Russell, do Comité dos 100. Russell estava convencido de que a ameaça iminente de uma guerra nuclear exigia medidas desesperadas, e rompeu com a aproximação mais tradicional do CND, formando o Comité com o propósito de orquestrar uma desobediência civil em larga escala. Isto culminou numa enorme manifestação na Praça de Trafalgar em Setembro de 1961 no decorrer da qual 1.000 pessoas, entre elas o próprio Russell, foram detidas.
Cadogan envolveu-se logo à partida na organização do comité e tomou vigorosamente parte dum grupo que o “The Times” em 1968 descreveu como sendo “a vanguarda militante do movimento de contestação, pioneiro do protesto sentado, do cântico de paz e de outras técnicas de demonstração que se tornaram universais”.
Em 1962 Cadogan tentou levar a cabo uma demonstração na Praça Vermelha contra as armas nucleares soviéticas. Foi rapidamente desmantelada. No ano seguinte tornou-se ainda mais notório ao publicitar a criação da Espiões pela Paz, um grupo que revelou a existência de “Assentos Governamentais Regionais”, bunkers a partir dos quais a Grã-Bretanha seria governada no evento duma guerra nuclear. Cadogan tornou-se secretário a tempo intento do Comité dos 100 em 1965, e conseguiu manter-se sem dar aulas. Mas por esta altura o movimento já tinha atingido o seu apogeu. O mundo civilizado não tinha sido assolado por um Inverno nuclear, o tratado que bania os testes nucleares tinha sido assinado e o apoio [ao comité] escasseava, sendo a guerra do Vietname a nova causa da moda. O Comité cessou actividades em 1968.
A sua influência, contudo, sobreviveria. “Os grupos de pressão contínua serão os novos factores da Constituição britânica,” afirmou na altura Cadogan.
Cadogan fundou um grupo de pressão deste género, a Campanha para a Salvação de Biafra, no escritório deixado vago pelo Comité dos 100. Obteve sucesso em despertar a atenção pública para o desastre humanitário causado pela guerra separatista no Estado da Nigéria, mas não obteve sucesso no que diz respeito a abalar o apoio do governo a uma Nigéria unificada.
Quando os Biafrans capitularam em 1970 Cadogan tornou-se em secretário-geral da Sociedade para a Ética de South Place, em Bloomsbury. Esta sociedade livre-pensadora, fundada em 1793, tinha entretanto abandonado todos os compromissos religiosos do século XIX e ganho reputação como sendo uma frente de renome para todos os tipos de dissidência. Cadogan presidiu-a durante 11 anos, com deveres tão diversos como levar a cabo casamentos e funerais humanitários.
Cadogan achou que era a sua missão defender “o sentimento religioso racional”, ou uma noção do sagrado, contra o secularismo militante e os seus ex aliados marxistas, mas abandonou a sociedade após ter sido aprovado um voto de não confiança em 1981. Desde então e até à sua reforma em 1983 foi tutor de História das Ideias na Faculdade de Birkbeck.
Cadogan descrevia-se a si próprio em 1963 como sendo “um socialista revolucionário não-violento na tradição puritana inglesa”. Num notável artigo datado de 1980 Bernard Levin apelidou-o de “uma espécie de anarquista filosófico… demasiado honesto e com mente demasiado aberta para dedicar a sua fidelidade a uma só ideologia” (embora Levin tenha acrescentado: “provavelmente é louco”).
As ideias de Cadogan continuaram a evoluir. Mas tarde escreveria: “Em Junho de 1987 apercebi-me de que já estava com 66 anos e tinha estado continuamente envolvido em movimentos pela liberdade, pela justiça e pela paz durante mais de 46 anos e aparentemente não tinha concretizado nada. Algo estava errado. Ou eu tinha que voltar ao início e recomeçar, ou desistir. E de modo nenhum eu podia desistir.” Decidiu que contestar não era o suficiente; “tínhamos que ter uma mensagem positiva a transmitir.”
Tentou desenvolver uma “terceira via” enraizada numa tradição espiritual radical que rastreou dos gnósticos, passando pelos Anabaptistas e culminando em Blake. (Foi um dos fundadores da Black Society bem como o seu presidente de 1988 a 1994). Pegando na máxima de Blake “O homem foi criado para a alegria e para o deslumbramento, E quando disso temos certeza, Pela vida passamos com segurança”, Cadogan tentou desenvolver um conceito político que interagia com as pessoas na sua condição de seres humanos, não como meros trabalhadores ou consumidores.
O resultado prático deste esforço foram uma série de organizações que promoviam a “Democracia Directa” (escreveu um livro com este título em 1974), Cadogan acreditava que os pequenos grupos, nos quais se podiam discutir as coisas cara a cara, constituíam a unidade política natural (“sete aparenta ser o número ideal”) e advogava uma devolução radical do poder aos “conselhos comunitários”, que tornava o Estado-nação em algo redundante.
Fiel aos seus princípios, Cadogan dedicou muitos anos ao activismo em projectos locais nos arredores da sua moradia em Kilburn. Era uma interpretação geopolítica muito diferente das campanhas da sua juventude, mas os resultados eram mais tangíveis. Os seus sucessos, afirmava, eram “modestos, mas muito gratificantes”.
Casou com Joyce, filha do deputado trabalhista William Stones, em 1949. Divorciaram-se em 1968. Sobrevive-lhe uma filha.
Peter Cadigan, professor e activista, nasceu a 26 de Janeiro de 1921. Faleceu em 18 de Novembro de 2007, com 86 anos.
http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/obituaries/article2956711.ece
