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Sobreviventes de My Lai perdoam, mas não esquecem - aldeia vietnamita organiza hoje homenagem às vítimas

8:12 pm · Post your comment (No Comments)

 Helena Tecedeiro

Passava pouco das 08.00 no dia 16 de Março de 1968 quando os soldados da companhia “Charlie” entraram na aldeia de My Lai. “As ordens eram para matar tudo o que mexesse”, disse mais tarde um dos militares americanos ao jornalista Seymour Hersh, que, um ano depois, daria a conhecer ao mundo o massacre de 504 civis vietnamitas. A revelação de um dos mais negros episódios da guerra do Vietname ajudou a virar a opinião pública contra o conflito.

Quarenta anos depois do massacre, My Lai ainda não esqueceu. No centro da aldeia, ultimaram-se nos últimos dias os preparativos para a cerimónia de homenagem às vítimas, marcada para hoje. Os monges rezarão pelos mortos. O director do museu, Pham Thangh Cong, é um dos poucos sobreviventes. Tinha então 11 anos e perdeu a mãe e os irmãos.

Comandada pelo tenente William Calley, a companhia “Charlie” não poupou ninguém. Mataram os animais, violaram e mutilaram as mulheres, assassinaram homens e não pouparam as crianças. Para sobreviver, alguns habitantes não tiveram outra opção senão fingirem-se de mortos, passando horas no meio dos cadáveres.

Calley diria mais tarde ter recebido ordens para “limpar My Lai”, considerada como um feudo dos combatentes comunistas vietcongues.

Foi preciso esperar até Novembro de 1969 para que o que aconteceu em My Lai viesse a público. Seymour Hersh, o homem que, em 2004, denunciaria também o escândalo de Abu Ghraib, tornou-se famoso quando os mais importantes jornais americanos pegaram na história que ele vendera a uma agência noticiosa. E, apesar de o presidente Richard Nixon ter conseguido salvar o tenente Calley da prisão perpétua, não conseguiu parar os crescentes protestos contra uma guerra que só terminaria em 1975 e custaria a vida a 58 mil americanos e dois a quatro milhões de vietnamitas.

Hoje, apesar da ira das vítimas do “agente laranja”, um pesticida usado pelos EUA no Vietname, que continuam à espera de indemnização, as relações entre Washington e Hanói são boas. Num tempo em que o Vietname precisa de pôr o investimento estrangeiro à frente de velhas inimizades, muito parece ter sido perdoado, mas nem tudo foi esquecido.

Diário de Notícias, 16 de Março de 2008

Tags: Internacional

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