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	<title>Altermedia Portugal - na rede desde 17 de Junho de 2003 &#187; Sociedade</title>
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	<description>Numa era em que a mentira é universal, dizer a verdade é um acto revolucionário. (George Orwell)</description>
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		<title>Uniões de facto: o que se pretende?</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 18:32:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria José Nogueira Pinto &#8211; O veto do Presidente suscitou as mais diversas teses conspiratórias e as interpretações distorcidas a que uma certa esquerda nos tem habituado. Na primeira linha estão os que inscrevem este veto num quadro valorativo ideológico e (ou) religioso, ou que vêem nele um sinal implícito de apoio à &#8220;direita reaccionária&#8221;; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-867" title="Maria José Nogueira Pinto" src="http://pt.altermedia.info/images/mariajosenogueirapinto-150x150.jpg" alt="Maria José Nogueira Pinto" width="150" height="150" />Maria José Nogueira Pinto</strong> &#8211; O veto do Presidente suscitou as mais diversas teses conspiratórias e as interpretações distorcidas a que uma certa esquerda nos tem habituado. Na primeira linha estão os que inscrevem este veto num quadro valorativo ideológico e (ou) religioso, ou que vêem nele um sinal implícito de apoio à &#8220;direita reaccionária&#8221;; na segunda, os que num discurso de luto lamurioso fazem tábua rasa do conteúdo da nota presidencial que exprime não só o reconhecimento da necessidade de aperfeiçoamento do regime jurídico das uniões de facto, como pressupõe que o próximo legislador &#8211; qualquer que ele seja &#8211; recuperará, em melhores condições, o processo de revisão da actual lei no quadro de uma discussão aprofundada.</p>
<p>A questão fulcral, como todos entenderam, assenta na opção do legislador de aproximar o regime jurídico das uniões de facto do regime jurídico do casamento. Ora esta opção pode, por si só, comprometer as opções individuais daqueles que, não querendo contrair matrimónio, optam por uma união de facto e que, por isso mesmo, não podem ter interesse ou ver vantagem em serem espartilhados por um regime jurídico que não corresponde ao seu animus nem à sua intenção. O que está em causa não é de somenos já que se trata de preservar a liberdade de escolha no âmbito da esfera privada de cada um. Pode o Estado sobrepor-se a isso?<span id="more-1096"></span></p>
<p>A questão não é nova e convém lembrar que, quando por iniciativa do PS o Parlamento se confrontou pela primeira vez com a &#8220;contratualização&#8221; das uniões de facto, o debate girou em torno do mesmo ponto. Não faltou quem, à esquerda, quisesse fazer desta contratualização uma espécie de subcasamento assente num falso princípio da igualdade. Uma igualdade que é conseguida diminuindo ou preterindo o estatuto dos que se casam e, simultaneamente, criando de forma artificial e voluntarista um estatuto semelhante para os que apenas querem viver juntos.</p>
<p>Podia evocar aqui Sartre e Beauvoir que com tanto desvelo elencaram o argumentário contra o aburguesamento das relações sentimentais, mas duvido que a nossa esquerda doméstica se lembre deles. Certamente mais útil é relembrar duas perigosas particularidades da nossa democracia que têm vindo a agravar-se.</p>
<p>A primeira refere-se ao modo como se tem legislado em Portugal: quer a aprovação recente, em sede de governo e em sede parlamentar, de leis inconstitucionais, quer a aprovação de leis que se revelam, logo após a sua entrada em vigor, incompreensíveis, inaplicáveis e perniciosas para os próprios destinatários. Do alto do seu cadeiral o poder constituído legisla indiferente à realidade social e sociológica que o rodeia, alheio aos anseios e legítimos interesses dos cidadãos e distante dos que têm por função aplicar a lei. O caldeirão parlamentar sobrepõe-se ao valor da certeza e segurança jurídica.</p>
<p>A segunda diz respeito a esta crescente invasão da esfera privada dos cidadãos. O Estado &#8211; que tantas vezes falha nas suas mais relevantes funções &#8211; quer hoje tomar conta de todos e cada um de nós: dos nossos casamentos, dos nossos divórcios, das nossas uniões de facto, das nossas famílias, da educação dos nossos filhos e até da quantidade de sal em cada carcaça que comemos. É uma ameaça crescente às liberdades individuais e cívicas em nome das boas intenções que enchem o inferno e da legitimação de uma ditadura do pensamento único.</p>
<p>Isto sim, é perigosamente ideológico. O que me leva a ter saudades do &#8220;é proibido proibir&#8221; do remoto Maio de 68 que era bem melhor. Seria então proibido proibir as famílias e os cônjuges de serem o que são, e proibido proibir os que vivem em união de facto de serem o que querem ser. Aliás, parece-me que ninguém pediu o contrário. Quando muito, e justamente, o direito à diferença.</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1345559&amp;seccao=Maria%20Jos%E9%20Nogueira%20Pinto&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco" target="_blank"><em>Diário de Notícias</em></a>.</p>
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		<title>A responsabilidade e a culpa</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 10:17:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria José Nogueira Pinto &#8211;  Em Portugal confunde-se a responsabilidade com a culpa. A primeira é vaga e impessoal, a segunda costuma morrer solteira. O que se passou (e passa) no Hospital de Santa Maria com a cegueira provocada em seis doentes por evidentes más práticas é paradigmático. Sabemos que errar é humano e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-867" title="Maria José Nogueira Pinto" src="http://pt.altermedia.info/images/mariajosenogueirapinto-150x150.jpg" alt="Maria José Nogueira Pinto" width="150" height="150" />Maria José Nogueira Pinto</strong> &#8211;  Em Portugal confunde-se a responsabilidade com a culpa. A primeira é vaga e impessoal, a segunda costuma morrer solteira. O que se passou (e passa) no Hospital de Santa Maria com a cegueira provocada em seis doentes por evidentes más práticas é paradigmático. Sabemos que errar é humano e sabemos que o erro não tem as mesmas consequências, uma das formas de avaliar a sua gravidade. Em saúde, todos os erros são graves e por isso mesmo devem absolutamente ser evitados. Para isso servem os procedimentos, os protocolos, as guide lines. Um hospital é como que uma complexa linha de produção e para um acto cirúrgico, por exemplo, concorrem diversos técnicos de diferentes serviços cujas competências e atribuições estão, à partida, perfeitamente definidas, e em cada segmento dessa linha de produção devem existir mecanismos seguros de verificação dos procedimentos obrigatórios em termos de segurança.<span id="more-1079"></span></p>
<p>Assim, quando um erro é cometido, pode-se inferir que a culpa (negligência, má prática, o que seja) é de um determinado serviço, mas a responsabilidade é do hospital, que não é um mero edifício, mas uma organização com uma natureza jurídica própria que responde, no seu conjunto, pelos serviços que presta e os actos que pratica. É também por isso mesmo que um hospital tem uma cadeia de comando, hierarquias que definem não apenas os níveis de responsabilidade como um modelo orgânico teoricamente adequado à melhor complementaridade das múltiplas funções e dos inúmeros actos que concorrem para o resultado final. Assim, quando um doente entra num bloco cirúrgico é suposto que todas as condições estejam reunidas para que essa cirurgia se pratique de acordo com o estado da arte: desde a esterilização ao material de consumo clínico, passando pelos medicamentos e o bom estado de funcionamento de toda a tecnologia necessária. Não vale de nada ter uma boa equipa de cirurgia se tudo o resto for assim-assim, como não vale de nada que tudo o resto seja excelente se o cirurgião for incompetente.</p>
<p>Posto isto, seria legítimo esperar que desde o primeiro momento a administração do hospital tivesse vindo a público assumir a responsabilidade do ocorrido, face aos doentes, aos seus familiares e à opinião pública, independentemente de se accionarem todos os procedimentos necessários, internos e externos, para o apuramento dos factos. Assumir responsabilidades é a parte mais incómoda do estatuto de quem manda, mas convém não esquecer que os lugares de topo só existem porque é preciso identificar fora e dentro da instituição quem a representa e quem são os seus responsáveis máximos.</p>
<p>O que vimos, estupefactos, foi precisamente o contrário: uma novela com telefonemas anónimos e toques de sabotagem, um passar de culpas, um capote permanentemente sacudido. Algo gravíssimo porque um sistema de saúde assenta na confiança, porque um doente é um ser humano particularmente vulnerável que se confia nas mãos daqueles que cuidam, tratam e curam, porque um hospital como Santa Maria se presume como uma capacidade instalada de excelência.</p>
<p>Mais preocupante é o facto de só agora, e a propósito desta tristíssima ocorrência, a Entidade Reguladora da Saúde anunciar que vai avaliar todos os serviços de oftalmologia do País. Parece ser essa a prática de todas as nossas entidades reguladoras, aparecerem zelosas quando os escândalos rebentam…</p>
<p>Patética é a referência a um frigorífico sem termómetro na farmácia hospitalar de Santa Maria (porque será que não o substituíram? Não terão verba?) e bem conforme à nossa cultura está a afirmação do ilustre especialista canadiano Miguel Burnier sobre as melhorias &#8220;quase milagrosas&#8221; verificadas em três dos seis doentes. De facto é o que somos, um país de milagres.</p>
<p>Mas, apesar de eu ser uma mulher de (e com) fé, prefiro juntar-lhe o provérbio popular &#8220;fia-te na Virgem e não corras e verás o trambolhão&#8221;.</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1333469&amp;seccao=Maria%20Jos%E9%20Nogueira%20Pinto&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco" target="_blank"><em>Diário de Notícias</em></a>.</p>
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		<title>União Ibérica &#8211; falta de senso, gosto e assunto</title>
		<link>http://pt.altermedia.info/sociedade/uniao-iberica-falta-de-senso-gosto-e-assunto_1068.html</link>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 19:17:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade]]></category>
		<category><![CDATA[Política Nacional]]></category>
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		<description><![CDATA[Jaime Nogueira Pinto &#8211; Estão sempre a aparecer nos media inquéritos, sondagens, questionários de rua. Que valem o que valem. Mas o seu resultado surge com o peso de um imperativo categórico kantiano.
Tais inquéritos abrangem as mais diversas situações e temas: opções sexuais, produtos domésticos, jogadores de futebol, líderes partidários, figuras do show-business, casos do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-910" title="Jaime Nogueira Pinto" src="http://pt.altermedia.info/images/jaimenogueirapinto-150x150.jpg" alt="Jaime Nogueira Pinto" width="150" height="150" />Jaime Nogueira Pinto</strong> &#8211; Estão sempre a aparecer nos media inquéritos, sondagens, questionários de rua. Que valem o que valem. Mas o seu resultado surge com o peso de um imperativo categórico kantiano.</p>
<p>Tais inquéritos abrangem as mais diversas situações e temas: opções sexuais, produtos domésticos, jogadores de futebol, líderes partidários, figuras do show-business, casos do dia.</p>
<p>Só que a conclusão funciona da mesma maneira imperativa, independentemente do tema e do universo da sondagem. Nem se mostra o questionário de base, nem os critérios de selecção da sondagem.<span id="more-1068"></span></p>
<p>A partir dessas respostas, faz&#8211;se o cozinhado mais apelativo em termos de surpresa, escândalo (só salvaguardando a correcção política) e apresentam- -se olimpicamente os dados &#8211; Os Portugueses, decidiram! Como no Big Brother.</p>
<p>Desta vez o inquérito era da Universidade de Salamanca e tratava da ligação de Portugal a Espanha. Uns jornais falavam em &#8220;união ibérica&#8221; outros em &#8220;confederação&#8221;, mas a coisa andava por aí, pela eterna história da unificação peninsular.</p>
<p>Ficámos a saber pela pesquisa, que dos portugueses &#8211; que eram uns trezentos e picos &#8211; um terço era contra, outro terço a favor e o restante terço tanto se lhe dava.</p>
<p>Os conhecimentos exibidos pelos respondentes revelavam profunda e irreversível ignorância das coisas mais elementares de um país e do outro &#8211; os espanhóis soberanamente a leste de quaisquer detalhes da vida portuguesa; os portugueses pouco melhor sobre Espanha. E todos sabem pouco dos próprios países. As esclarecidas criaturas assim decidiram.</p>
<p>Desde que o inefável Nobel Saramago, há um par de anos, do alto do seu prémio, proclamou a inevitabilidade e as vantagens da união ibérica, transpondo o seu caso pessoal para o domínio comum, o tema está de moda.</p>
<p>O dictatus do laureado que, em país de mais olhos que barriga e bacocas admirações, passou a oráculo, foi o sinal para esta campanha neo-iberista, inteiramente desajustada das realidades, dos interesses, dos sentimentos dos Estados e povos peninsulares.</p>
<p>Sobretudo num tempo em que a integração económica e a integração política são coisas cada vez mais diferentes. Como prova a própria História da União Europeia. Portugal e Espanha são dois Estados, um nacional, outro plurinacional, e cuja separação e independência têm um significado e um valor consolidados numa História de muitos séculos.</p>
<p>Discutir coisas tão importantes como a vida e morte dos povos na leviandade de inquéritos de ocasião e sua extrapolação em títulos e comentários bombásticos é, manifestamente, falta não só de patriotismo, como de bom senso e bom gosto. E de assunto.</p>
<p>Com a devida vénia ao <em><a href="http://www.ionline.pt/conteudo/16462-uniao-iberica---falta-senso-gosto-e-assunto" target="_blank">i online</a></em>.</p>
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		<title>Amizades virtuais</title>
		<link>http://pt.altermedia.info/sociedade/amizades-virtuais_1070.html</link>
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		<pubDate>Mon, 03 Aug 2009 19:22:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[João César das Neves -  Imagine um amigo que se põe aos gritos numa estação de comboios ou telefona para números aleatórios apregoando opiniões pessoais sobre questões de actualidade. Tomaria isso como uma atitude sensata? Suponha que conhece um grupo de pessoas que gosta de andar pelas ruas a interpelar desconhecidos tentando interessá-los em discussões [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-853" title="João César das Neves" src="http://pt.altermedia.info/images/joaocesardasneves-137x150.jpg" alt="João César das Neves" width="137" height="150" />João César das Neves</strong> -  Imagine um amigo que se põe aos gritos numa estação de comboios ou telefona para números aleatórios apregoando opiniões pessoais sobre questões de actualidade. Tomaria isso como uma atitude sensata? Suponha que conhece um grupo de pessoas que gosta de andar pelas ruas a interpelar desconhecidos tentando interessá-los em discussões sobre assuntos variados. Acharia isso razoável? Que responderia se lhe recomendassem um café onde se conversa sem conhecer o interlocutor? Poderá ser um diálogo equilibrado e sério?</p>
<p>Todos estes comportamentos, que consideraríamos aberrantes na nossa cidade, parecem habituais na Internet. Os blogs, mensagens em massa, redes sociais, mundos virtuais e outros sites de interacção tornaram-se subitamente muito populares. Aí multidões gastam o tempo livre (e boa fatia do que devia estar ocupado) a participar naquilo que dizem ser relação social. Mas, como nos exemplos referidos, estes contactos não constituem verdadeira conversação humana. Se podem evoluir para algo com significado, em geral não passam de dissipação e ociosidade.<span id="more-1070"></span></p>
<p>Um colóquio tem certas exigências particulares. Não é possível entabular contactos relevantes e válidos com desconhecidos ou passantes eventuais. Isso é verdade na rua como na Net, por muito que isso frustre as certezas dos fanáticos da novidade. Podem fazer-se novas amizades no mundo virtual, mas à custa das antigas e verdadeiras amizades. Poderei ter afecto por uma pessoa que não conheço? E como conhecer alguém de quem apenas recebo algumas frases em escrita truncada? Muitos, que são em geral reservados com estranhos, estão dispostos a meter em casa pela Net desconhecidos durante horas.</p>
<p>Pior ainda, nessas condições as pessoas sentem-se livres das regras da convivência e comportam-se de maneira bizarra. Num blog ou mensagem electrónica escrevem-se coisas que se nunca diriam ao telefone ou assinariam numa carta. Atrás de um anonimato aparente, por vezes confirmado por pseudónimo ou avatar, as pessoas pacatas mudam e surgem arrogantes, insolentes ou obscenas.</p>
<p>O fascínio das novas tecnologias sempre levou a comportamentos estranhos. Já esquecemos as tolices que se fizeram com os primeiros telégrafos, rádios e automóveis. No deslumbramento inicial perante a novidade, excessos e aberrações surgem compreensíveis e comportamentos desequilibrados parecem progressivos e inovadores. Mas são asneira acabam sempre como as velhas asneiras.</p>
<p>A Internet apesar de recente já tem a sua conta de exageros. Lembra-se da euforia da &#8220;nova economia&#8221; onde viviam as &#8220;empresas-gazela&#8221;? Esses negócios diziam saltar por cima das regras antigas sem precisar de lucros, armazéns ou clientes, porque as leis de mercado estavam ultrapassadas na realidade do mundo virtual. Tudo isso se esfumou no crash do Nasdaq em 2001.</p>
<p>Desde a descoberta do fogo, o ser humano sabe que os saltos tecnológicos trazem enormes vantagens e grandes perigos. A única forma de beneficiar deles é respeitar as regras básicas da natureza humana. As empresas dotcom aprenderam isso da maneira mais dura. O mesmo se passará com as redes sociais. Elas podem ser excelentes instrumentos para facilitar as verdadeiras relações pessoais. Mas também podem criar novos tipos de sociopatas ou misantropos, absorvidos por conexões fictícias ou doentias e até capturados por párias e criminosos. Além disso, a simples massificação altera o significado do instrumento. Os primeiros blogs tiveram grande influência, como o primeiro jornal era lido por todos. Quando todos têm blogs, ninguém lê nenhum.</p>
<p>Não se pode negar a espantosa capacidade de comunicação que a realidade electrónica nos trouxe. Não é possível medir os ganhos do correio electrónico, sites de empresas e organizações, mercados virtuais, enciclopédias online, jornais na Net, etc., etc. O acesso à informação foi espantosamente melhorado e aumentado, reduzindo-se drasticamente custos da nossa vida. Mas a finalidade tem de ser a vida, não a Web. A Net foi feita para a gente, não a gente para a Net.</p>
<p>Com a devida vénia ao <em><a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1324330&amp;seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco" target="_blank">Diário de Notícias</a>.</em></p>
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		<title>Meias-noites quentes no Salon Rouge</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Aug 2009 10:55:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Azoria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Eurico de Barros &#8211; A exibição pública de filmes pornográficos em Lisboa não começou depois do 25 de Abril de 1974 . Muito antes de os capitães dos cravos nos canos das G3 terem, entre outras coisas, aberto as portas às fitas hardcore primeiro escalão (conforme a classificação arranjada à época), já os lisboetas tinham [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-1065" src="http://pt.altermedia.info/images/IndustriaPorno-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Eurico de Barros</strong> &#8211; A exibição pública de filmes pornográficos em Lisboa não começou depois do 25 de Abril de 1974 . Muito antes de os capitães dos cravos nos canos das G3 terem, entre outras coisas, aberto as portas às fitas hardcore primeiro escalão (conforme a classificação arranjada à época), já os lisboetas tinham tido a possibilidade de ver cinema ollé ollé, no início do século XX, e ainda em plena monarquia (é menos uma conquista da República que se vai assinalar para o ano&#8230;).</p>
<p>O aparecimento do então chamado cinematógrafo deu rapidamente origem à abertura de salas para a exibição de filmes. Lisboa não foi excepção, e terá sido em 1907 ou 1908 que abriu a portas na Rua D. Pedro V, n.º 108, o Salon Rouge (o nome é só por si todo um programa), que embora sendo um espaço algo improvisado, foi o primeiro na capital a passar cinema pornográfico, em sessões que começavam à meia-noite (outra novidade em que a sala terá sido pioneira), as chamadas &#8220;Sessões para Ingénuos: Fitas d&#8217;alta potência&#8221;. (De dia, o cinema tinha sessões normais). Desconhece&#8211;se se o bilhete para essas exibições &#8220;especializadas&#8221; era mais caro do que o das sessões diurnas regulares.<span id="more-1064"></span></p>
<p>Os filmes então exibidos aos &#8220;ingénuos&#8221; (ou nem tanto&#8230;) que frequentavam o Salon Rouge nessas noites de imagens inéditas e sensações pecaminosas proporcionadas pelo cinematógrafo eram obviamente mudos e muito curtos, e deviam ser de proveniência francesa. Ou eram trazidos da mesma Paris de onde na altura continuavam a chegar a Portugal os livros, as revistas, as ideias, as modas e os luxos, ou então eram encomendados juntamente com os títulos destinados ao grande público.</p>
<p>Recorde-se que a França e os EUA foram pioneiros também da pornografia cinematográfica, e que saiu há um par de anos no mercado francês um DVD com uma compilação muito variada desses filmezinhos cochon velhos de quase um século, verdadeiras relíquias dos primórdios da pouca-vergonha na Sétima Arte. Quem sabe se alguns deles não terão sido vistos pelos alfacinhas de então, nas escaldantes meias-noites do Salon Rouge?</p>
<p>Segundo conta Marina Tavares Dias no volume 7 de Lisboa Desaparecida, o programa do dia 28 de Novembro de 1908 no Salon Rouge constava de dois filmes: Duas Amigas &#8211; Hoje Há Fressura, e Pintor Modelo &#8211; Principia a Erecção. Muito antes do 25 de Abril já havia quem soubesse dar títulos coloridos aos filmes da especialidade, dignos antecessores de O Hotel das Suecas Devassas, O Rali das Gozonas ou A Minha Mulher não Tem Cama Certa, que nos anos 70 e 80 fizeram as delícias dos frequentadores do Capitólio, do Cinebolso ou do Olímpia.</p>
<p>Ainda segundo Marina Tavares Dias, o sucesso do Salon Rouge foi tal, que &#8220;chegou a ter &#8216;filiais&#8217;, como o Chalet Rotunda, na Feira de Agosto&#8221;. Histórias esquecidas de uma outra cidade, sobretudo agora, quando primeiro o vídeo e depois o DVD mataram a porno star nos cinemas, e os cinemas porno de Lisboa com ela.</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1322786&amp;seccao=Eurico%20de%20Barros" target="_blank"><em>Diário de Notícias</em></a>.</p>
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		<title>Casamento de homossexuais: Censura prévia e declarada ao PNR</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Jul 2009 23:59:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[VML &#8211; Hoje o presidente do PNR, José Pinto-Coelho, foi convidado pelo canal de televisão TVI24 para participar num debate sobre a decisão do Tribunal Constitucional de rejeitar o pedido de casamento entre duas lésbicas. O tema do programa, ou a pergunta que serve de mote, é &#8220;concorda com o casamento de pessoas do mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-781" title="pnr1" src="http://pt.altermedia.info/images/pnr1.gif" alt="pnr1" width="37" height="44" /><strong>VML</strong> &#8211; Hoje o presidente do PNR, José Pinto-Coelho, foi convidado pelo canal de televisão <span style="font-style: italic;">TVI24 </span>para participar num debate sobre a <a href="http://www.terraportuguesa.net/2009/07/tribunal-constitucional-chumba.html">decisão do Tribunal Constitucional de rejeitar o pedido de casamento entre duas lésbicas</a>. O tema do programa, ou a pergunta que serve de mote, é <span style="font-style: italic;">&#8220;concorda com o casamento de pessoas do mesmo sexo?&#8221;</span>. No convite, a TVI24 informava que estaria presente o advogado das fulanas, a defender o ponto de vista das próprias, e que &#8220;do outro lado&#8221; estaria o presidente do PNR, como representante do único partido político português que defende a família como célula base da comunidade e se afirma contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quando Pinto-Coelho, que aceitou o convite, já se encontrava à porta dos estúdios da TVI, foi informado que já havia outro convidado para defender esse ponto de vista e que portanto a sua participação tinha sido&#8230; cancelada. Esta situação, só por si, já seria grave e inadmissível, mas ao observar o dito &#8220;debate&#8221; constata-se que afinal não havia outro convidado nenhum e, mais uma vez, a única opinião permitida foi a politicamente correcta. Confirma-se, mais uma vez, que o <a href="http://www.pnr.pt" target="_blank"><span style="font-weight: bold;">PNR &#8211; Partido Nacional Renovador</span></a> &#8211; incomoda muita gente e que é a verdadeira <span style="font-weight: bold; font-style: italic;">OPOSIÇÃO NACIONAL</span> ao sistema &#8211;  cujos partidos, nesta e noutras matérias, defendem todos uma ideia parecida &#8211; sem excepção!</p>
<p>Com a devia vénia ao <a href="http://www.terraportuguesa.net/" target="_blank"><em>Terra Portuguesa</em></a>.</p>
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		<title>A ética da estética</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2009 20:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[João César das Neves -  Qual o valor ético da arte? A pergunta hoje surge aberrante. A arte é a arte, e está acima das questões humanas. Os autores sentem-se com a função eminente de criar coisas novas e por isso superiores aos demais. Num tempo que recusa o sublime e o transcendente, os valores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-853" title="João César das Neves" src="http://pt.altermedia.info/images/joaocesardasneves-137x150.jpg" alt="João César das Neves" width="137" height="150" />João César das Neves</strong> -  Qual o valor ético da arte? A pergunta hoje surge aberrante. A arte é a arte, e está acima das questões humanas. Os autores sentem-se com a função eminente de criar coisas novas e por isso superiores aos demais. Num tempo que recusa o sublime e o transcendente, os valores estéticos ocupam o lugar do divino. Não parece fazer sentido sujeitar a arte a coisas como a ética.</p>
<p>O papel dos trabalhos artísticos mudou muito através dos séculos. Na origem é provável que música e pintura das cavernas tivessem propósitos mágicos ou encantatórios. Com a chegada da civilização, mudou a função mas não o tema. A maioria dos artistas da Antiguidade trabalhava representando o divino, nos templos dos deuses e nos palácios do faraó ou imperador, deuses visíveis. A situação manteve- -se na Cristandade com a arte sacra dominante. Deste modo, se os artistas perderam os poderes espirituais da pré-história, recebiam dignidade ética directamente do Céu.<span id="more-1050"></span></p>
<p>Com a prosperidade da &#8220;revolução comercial&#8221;, ganhou força uma nova forma de expressão ligada ao conforto dos ricos. Artes decorativas, retratos de família e música de câmara era algo que a Antiguidade vira apenas em surtos fugazes, nos períodos de florescência, mas que se popularizou na Europa da Baixa Idade Média.</p>
<p>Este confronto entre as duas formas de arte, sacra e profana, foi-se travando ao longo dos séculos. Se em Giotto (1267-1337) e Dante (1265-1321) dominava a expressão do sublime, Petrarca (1304-1374) e Van Eyck (1395-1441) também tratavam temas familiares e comuns. No Renascimento, mitologia e Bíblia eram ainda a inspiração de Miguel Ângelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520), mas a pintura mais famosa acabou por ser um simples retrato de uma burguesa, a jovem Lisa del Giocondo (1479-1542) pintada aos 20 anos por Leonardo (1452-1519) em 1503.</p>
<p>A Idade Moderna, com as guerras de religião seguidas por revoluções, foi a pouco e pouco transformando a arte, de uma forma de oração ou adereço de conforto, em arma de intervenção. Murillo (1617-1682) e Bach (1685-1750) são devotos e Rembrandt (1606-1669) e Mozart (1756-1791) pretendem agradar aos patronos; mas David (1748-1825) e Beethoven (1770-1827) querem transformar a sociedade. Nessa altura, como disse Marx em 1845, não se tratava de interpretar o mundo, mas de o mudar (Theses on Feuerbach, 11).</p>
<p>Curiosamente, nesse tempo em que a humanidade se assumia como divina, o Romantismo de homens como Byron (1788-1824), Manet (1832-1883) ou Chopin (1810-1849) combinava o dramatismo insurrecto com a mais prosaica emotividade burguesa. Foi o período em que a arte se pretendeu mais próxima da moral positiva, na construção da justiça social ou da relação amorosa. Mas esta aproximação entre ética e estética acabou na ruptura.</p>
<p>A geração seguinte recusou a instrumentalização política ou doméstica da sua actividade e procurou afirmar algo totalmente novo na história do mundo: a arte pela arte. A estética era a ética. Depois de ferramenta de feitiçaria, expressão do divino, forma de bem-estar ou arma de revolução, a obra hoje julga-se a sua própria medida e finalidade. As pessoas são meros objectos da arte, não sujeitos ou observadores.</p>
<p>Símbolo disso são os retratos de Edward James (1907-1984), poeta britânico e mecenas do surrealismo. Grato pelo apoio recebido, o pintor belga René Magritte (1898-1967) fez nada menos do que duas representações do seu patrono. Mas no primeiro, La reproduction interdite de 1937, o jovem aparece de costas diante de um espelho. Só que o espelho, segundo as regras excêntricas da escola, mostra-nos a imagem também de costas. Talvez arrependido da brincadeira genial, o artista voltou ao tema no mesmo ano, com Le principe du plaisir. Aí o amigo está de frente para nós. Mas a sua cabeça é substituída por uma explosão de luz.</p>
<p>Magritte é um grande génio, dos maiores de sempre. Os seus quadros interpelam-nos de uma forma inesperada e desconcertante. Mas, apesar dos dois retratos, a imagem da sua Gioconda do surrealismo não conseguiu ficar para a posteridade.</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1318412&amp;seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco" target="_blank"><em>Diário de Notícias</em></a>.</p>
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		<title>Ler para crescer</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Jul 2009 00:28:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria José Nogueira Pinto &#8211; O Plano Nacional de Leitura decidiu encorajar os avós a lerem histórias aos netos. O certo é que avós, netos e histórias são hoje muito diferentes: a maioria dos avós ainda está numa fase activa da vida, as crianças têm o tempo preenchido por actividades várias, as solicitações são muitas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-867" title="Maria José Nogueira Pinto" src="http://pt.altermedia.info/images/mariajosenogueirapinto-150x150.jpg" alt="Maria José Nogueira Pinto" width="150" height="150" />Maria José Nogueira Pinto</strong> &#8211; O Plano Nacional de Leitura decidiu encorajar os avós a lerem histórias aos netos. O certo é que avós, netos e histórias são hoje muito diferentes: a maioria dos avós ainda está numa fase activa da vida, as crianças têm o tempo preenchido por actividades várias, as solicitações são muitas e o tempo familiar mais escasso. Os livros infantis sofrem a inevitável concorrência dos desenhos animados, que passam em sessão contínua em diversos canais televisivos: alguns são medonhos e sobressaltados por sons guturais sem propósito ou sentido aparente, revelando um mundo de vencedores e vencidos, de força e astúcia despidas de qualquer virtude ou razão; outros mais não são do que formas indefinidas, num movimento lento com efeitos hipnóticos, e destinam-se certamente a adormecer bebés.<span id="more-1042"></span></p>
<p>O meu estatuto de avó reiniciou-me na literatura infantil, devolvendo-me os Três Porquinhos, a Carochinha e o João Ratão mais uma razoável porção de fadas boas e más, de princesas e príncipes, de florestas e duendes e um sem-fim de historietas de duvidoso gosto, mais ao jeito dos tempos actuais. Uma infância com livros é muito importante porque cada um de nós é também o que leu e, antes de ler, no princípio de tudo, o que ouviu lido por outros: a essencialidade da natureza humana, o bem e o mal, a inevitabilidade das vicissitudes da vida, da sua finitude e da morte, o medo e a força para a aventura de crescer.</p>
<p>No princípio era o verbo e a palavra foi sempre a chave que abriu todas as coisas. No princípio estavam os contos dos irmãos Grimm, os contos de Perrault, as fábulas de La Fontaine e a escuridão apavorante das ilustrações de Gustave Doré. A minha mãe abominava estas histórias. Lia-nos poesia a eito, e nós repetíamos Régio, Pessoa, Almada, Sophia, ora com voz líquida de lágrimas ora com voz forte de trovão. Por causa de quem, vejo-o hoje, os contos infantis chegaram ao mesmo tempo que os versos ao meu coração e à minha cabeça, assim entrelaçados. &#8220;Mãe! Diz essa metade que tu sabes do que é necessário saber, diz essa metade que tu sabes tão bem, para eu pensar a outra metade&#8221;, escrevia Almada e pedíamos nós.</p>
<p>O que se lê às crianças pode ser um contributo precioso para ajudar a &#8220;organizar interiormente uma história contável&#8221;: apagar o medo, trazê-los do outro lado do espelho, transportá-los para o real, que deste modo é lúdico e estético e próximo. E é também ético e bom. São assim os livros como o Petit Prince, Alice no País das Maravilhas ou A Menina do Mar: durante toda a vida vamos encontrar o coelho e o seu relógio, perceber a importância enganadora de um jogo de espelhos, o gosto pelo insólito, a importância do que é diferente, o valor do cheiro da rosa ou do sabor do vinho.</p>
<p>No Último Suspiro do Mouro, de Rushdie, há uma passagem que descreve os trabalhos pictóricos feitos pelo artista no quarto das crianças. Quando li, percebi que o facto de Rushdie ter sido condenado a uma profunda solidão o levou a ler tudo, incluindo banda desenhada, género em que se tornou especialista. As pinturas murais soltaram-se do âmbito restrito da encomenda feita, e o imaginário infantil, na sua versão mais tranquilizante e tecnicolor, ficou para todo o sempre guardando o sono e os sonhos.</p>
<p>Os tempos são outros, diferentes dos da minha infância e diferentes, também, da infância dos meus filhos. Agora é preciso forçar o momento e o espaço do livro, estabelecer uma cumplicidade que justifique o refazer de rituais tão afastados desta cultura infantil assente em sons de áudio, imagens de vídeo, truques de vozes gravadas e accionadas por minúsculos botões ocultos na contracapa, reproduzindo um imaginário prefabricado que reduz a criança ao mais passivo dos personagens.</p>
<p>Mas se conseguirmos esse tempo e esse espaço rapidamente reconstruímos o ritual: um colo, duas mãos, duas vozes e &#8220;papéis pintados de tinta&#8221;. O efeito, como pude comprovar, é mágico e vale a pena.</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1315119&amp;seccao=Maria%20Jos%E9%20Nogueira%20Pinto&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco" target="_blank"><em>Diário de Notícias</em></a>.</p>
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		<title>Justiça minada e afogada</title>
		<link>http://pt.altermedia.info/sociedade/justica-minada-e-afogada_1029.html</link>
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		<pubDate>Tue, 21 Jul 2009 00:01:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[João César das Neves &#8211; O estado da Justiça gera grave preocupação em todos os diagnósticos da situação portuguesa. Esses diagnósticos têm razão mas, em geral, falham o alvo.
A censura começa por ser mais severa que a realidade. Os nossos tribunais não são suspeitos de corrupção, displicência ou enviezamento. Apenas lentidão. Não temos uma justiça [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-thumbnail wp-image-853" title="João César das Neves" src="http://pt.altermedia.info/images/joaocesardasneves-137x150.jpg" alt="João César das Neves" width="137" height="150" />João César das Neves</strong> &#8211; O estado da Justiça gera grave preocupação em todos os diagnósticos da situação portuguesa. Esses diagnósticos têm razão mas, em geral, falham o alvo.</p>
<p>A censura começa por ser mais severa que a realidade. Os nossos tribunais não são suspeitos de corrupção, displicência ou enviezamento. Apenas lentidão. Não temos uma justiça distorcida, mas demorada. Esse atraso é muito nocivo, mas não devastador. Além disso muitas críticas provêm de alguns processos mediáticos que correram muito mal. Mas os casos que interessam os jornais não retractam fielmente o conjunto judiciário. Como de costume, as queixas e lamentos lusos ultrapassam as falhas reais.<span id="more-1029"></span></p>
<p>Apesar disso há fortes razões de preocupação, mas por motivos diferentes dos geralmente invocados. Pode falar-se de ineficiência nos procedimentos, interferências políticas e bloqueios corporativos, mas todas essas explicações não só são demasiado fracas para justificar a situação, mas existiam já em épocas passadas sem as falhas actuais. O problema está noutro lado como o revelam factos curiosos.</p>
<p>É frequente um tribunal recém-inaugurado fechar as portas por inundação de processos. A sociedade abusa do mecanismo judicial e conflitos antes resolúveis em família ou por conversas acabam na barra. Sinal equivalente vem da usurpa-ção dos media, blogs e discussões de ca-fé, que assumem poderes de juiz. A opi-nião pública habituou-se a condenar displicentemente e sem apelo, com base em análises vagas, testemunhos parciais, deliberação apressada.</p>
<p>A Justiça é o sector mais ligado ao estado da civilização, à atitude social básica. Por aí passam as patologias de uma época, revelam-se os desequilíbrios e clivagens da personalidade colectiva. É nos traços profundos da nossa identidade que devemos procurar as origens dos bloqueios. A sociedade está desconfiada, queixosa, quezilenta. Aí se encontra a causa real dos males. O atraso judicial é mero sintoma da depressão nacional.</p>
<p>Há muito que forças poderosas estão abertamente empenhadas em desmantelar as tradicionais colunas da moral nacional. Discursos políticos e desenhos animados, relatórios de peritos, revistas da moda e programas humorísticos desdenham da ética e propõem a transgressão sem vergonha. Em nome da liberdade, progresso e dinamismo atacam-se os valores que nos orientam há séculos. A religião é obsoleta, a família tacanha, a ética ridícula. Por interesses comerciais, fidelidades ideológicas ou simples divertimento mediático é costume hoje, não só desprezar a honestidade e seriedade, mas exaltar o atrevimento e a rebeldia. Não admira a crise na Justiça.</p>
<p>Os valores continuam respeitados na vida pessoal dos cidadãos e nos pronunciamentos oficiais, até porque é impossível viver sem eles. Mas isso passa-se à margem da cultura dominante, que recomenda arbitrariedade e atrevimento. Aí poucos princípios são sagrados, fora da ecologia, tabaco e trânsito. Pode dizer-se que os nossos antepassados eram mesquinhos e as suas regras abafadas, mas nós substituímo-las pela confusão, desmantelando as referências em nome da autonomia. Se ninguém sabe qual a Justiça que tem de seguir, é normal que a Justiça não funcione.</p>
<p>Pior ainda, quando a ética recua avança a lei. Subsistimos no meio de um indescritível matagal regulamentar, numa inimaginável profusão de decretos e portarias. Tudo é regulado ao pormenor e vigiado por multidão de fiscais e polícias que domina cada aspecto da vida. Não confiamos nos vizinhos e por isso amarramo-nos a todos com leis. Esta enxurrada legal revela a tolice e delírio de um sistema doente, mas não envergonha governantes e legisladores. Como pode a Justiça funcionar?</p>
<p>Há 1500 anos um bispo africano descreveu bem a atitude básica da nossa vida pública: &#8220;Os homens sem esperança, quanto menos preocupados estão com os seus pecados, tanto mais curiosos são sobre os pecados alheios. Não procuram corrigir, mas criticar. E, como não podem escusar- -se a si mesmos, estão sempre prontos para acusar os outros.&#8221; (S. Agostinho, Sermão 19, 2 CCL 41, 252).</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1312484&amp;seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco" target="_blank"><em>Diário de Notícias</em></a>.</p>
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		<title>Não dar tréguas ao totalitarismo</title>
		<link>http://pt.altermedia.info/sociedade/nao-dar-treguas-ao-totalitarismo_984.html</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2009 21:59:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Manuel Brás &#8211; Depois de desmontar o mito do voto útil no PSD e no CDS – o voto nunca é útil em forças políticas que já demonstraram não ser capazes de combater a ideologia totalitária de esquerda – e de fazer a apologia dessa proposta original da Nova Democracia que é a evolução para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignright size-medium wp-image-985" title="ManuelBras" src="http://pt.altermedia.info/images/ManuelBras-211x300.jpg" alt="ManuelBras" width="211" height="300" />Manuel Brás</strong> &#8211; Depois de desmontar o mito do voto útil no PSD e no CDS – o voto nunca é útil em forças políticas que já demonstraram não ser capazes de combater a ideologia totalitária de esquerda – e de fazer a apologia dessa proposta original da Nova Democracia que é a evolução para um regime presidencialista legitimado por uma Nova Constituição, os simpatizantes, militantes, coordenadores e candidatos da Nova Democracia não poderão deixar de considerar que a grande batalha política destas legislativas é o combate ao totalitarismo da esquerda, avidamente disputado pelo PS, BdE e PC.</p>
<p>Onde está esse totalitarismo? Em todo o lado: na imprensa, onde quase não há excepções ao pensamento único (basta só pensar no que a imprensa diz do “aquecimento global”, do combate à propagação do HIV/SIDA, da “educação sexual”, do conceito de casamento, etc.), no elevado número de impostos e nos elevados impostos, que condicionam e asfixiam a vida das famílias, da sociedade civil, dos contribuintes, num sistema educativo fechado que é monopólio do Estado, centrado na carreira docente e no “equipamento”, que desleixa a preparação intelectual, cultural e profissional dos alunos, de que a esquerda que domina o Estado se serve para veicular a ideologia – veja-se, por exemplo, a imposição do modelo obrigatório de “educação sexual” estatal – em vez de proporcionar aquilo que as famílias mais dificuldade têm para dar aos seus filhos: preparação intelectual, científica, cultural e profissional.<span id="more-984"></span></p>
<p>O totalitarismo também está num certo conceito de saúde centrado no Estado e no financiamento da oferta, o que condiciona, ou condena, os utentes do SNS, ao mesmo tempo que privilegia a Função Pública através da ADSE.</p>
<p>A resposta ao totalitarismo da esquerda que vive dos cofres do Estado é o “Estado Mínimo”, o estabelecimento de limites ao poder do Estado – que tem demasiado poder – e o financiamento da procura, em vez da oferta do Estado.</p>
<p>Nas próximas eleições, estas são as batalhas que interessa travar.</p>
<p>Para que tudo não fique na mesma, é preciso novas caras em S. Bento: Manuel Monteiro e a Nova Democracia podem fazer a diferença. Os do costume não poderão mudar agora o que não mudaram em décadas.</p>
<p>Não demos tréguas ao totalitarismo da esquerda.</p>
<p>Com a devida vénia ao <a href="http://www.demoliberal.com.pt/noticias.php?noticia=7464" target="_blank"><em>Democracia Liberal</em></a>.</p>
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