Jaime Nogueira Pinto
A eleição do Dr. Luís Filipe Menezes foi apresentada como um triunfo do “populismo”, sendo este uma espécie de insulto ou anátema óbvio – com um “populista” os notáveis partem, e o PSD fica no mato.
A maioria das criaturas que falam disto não sabem o que é “populismo”. Nas salas, o “populismo” é visto como uma coisa de gente pouco fina, de baixa condição. Raciocínio mais sofisticado, veio de alguém dado a sínteses que adiantou que “isto” (no PSD) era uma luta entre tótós (os barões) e gabirús (os populistas).
No meio da confusão, houve a definição sibilina do Eng. Ângelo Correia: “Populismo é tomar banho no Tejo e disfarçar-se de taxista”.
Não sei para onde vai o PSD com Menezes mas com o Dr. Marques Mendes – aliás varão probo e excelente – e o seu discurso asséptico e rigorosamente ao centro, não ia a lado nenhum.
O que é populista? Os populistas russos do século XIX, os narodniki, não se disfarçavam de taxistas nem nadavam, mas pregavam a imensa bondade e sabedoria do povo, (narod), com quem os intelectuais e as elites deviam aprender. Os populistas americanos da era da “Reconstrução” apoiavam-se nos agricultores, desconfiavam dos barões do capitalismo e nadavam, mas nas teorias da conspiração… Um livro, Seven Financial Conspiracies Which Have Enslaved the American People, marca o espírito do tempo. Como panfletos contra os Rotschild - banqueiros, judeus e europeus. E na França, da mesma época, o populismo aparece com Déroulède e com Drumont, exalta o povo (”Les petits gens”) e grita “à bas les voleurs”, contra os políticos e os financeiros do beau monde da belle époque.
O fascismo – mas sobretudo o nacional-socialismo – têm um lado populista, na exaltação dessa entidade mítica, intrinsecamente boa, saída das florestas de Armínio para os Volkswagen e os paquetes da Alegria no Trabalho – o “povo alemão”.
Le Pen, Berlusconi, Chavez são populistas. O populismo sul-americano apesar de Peron, foi sempre mais “à esquerda”; o europeu, desde Poujade, aos movimentos de “terceira via” do tipo gémeos polacos, mais “à direita”.
Por cá, o “franquismo” e o “sidonismo” tiveram laivos populistas. Salazar, cerebral, ordeiro, conservador, com o seu azar à multidão e à retórica, não foi por aí. A ANP ensaiou um populismo “nacional” e muitas das suas bases fundaram o PSD, pela província. E em 1975 o que parou o PREC foi um movimento populista – caudilhos locais que, com muitos Padres-nossos e Avé-marias, se foram às sedes do PCP e as queimaram!
O povo não vale mais nem menos que as elites, mas tem mais gente que elas. O que conta
Assim, se se livrar de más companhias, moderar regionalismos e europeísmos e for “popular” só e quanto baste, Menezes pode vir animar as coisas.
Fonte: O Futuro Presente



