José Javier Esparza
Jovens antifascistas contra jovens neo-nazis num mundo onde o fascismo já não existe e no qual o domínio da raça branca se exprime como cosmopolitismo multiracial. Duas mitologias arrombadas pela História ressuscitam, como paródia, no ânimo e na cólera de adolescentes que expressam o seu ódio como arruaceiros. Alheios a qualquer aposta política real, analfabetos dos problemas reais da vida pública, vestem cores imaginárias como quem se disfarça para o Halloween. Uns sonham com um bolchevismo genocida, os outros sonham com um Reich que só existe na sua fantasia. Isto não é um problema político; é um problema de educação.
Não faltaram comentadores, especialistas de sucesso, que atribuíram os graves incidentes de Madrid à manipulação, à provocação. Não seria a primeira vez. Uma pega de arruaceiros no metro madrileno, um morto, vários feridos, vários detidos… E tudo isso na periferia de uma manifestação “ultra” que acabou por ser interrompida. A manifestação – contra a imigração massiva – era convocada pelo Democracia Nacional (partido nacionalista espanhol – ndt), como se encarregaram de recordar todos e mais algum dos órgãos de comunicação social quando noticiaram a notícia deste assunto. Democracia Nacional negou qualquer vinculação com os actos e com os inculpados.
O morto é um jovem de dezasseis anos. Demasiado jovem para morrer. Porque morreu? Provavelmente, nem ele próprio o sabia quando a faca entrou no seu peito. Os seus amigos apressaram-se a dizer que não fazia parte de nenhum bando. É impossível saber ao certo o que quer dizer isso exactamente. A única realidade é que morreu. Sem causa.
O assassino, presumivelmente, é um soldado de 24 anos. Afirmam os periódicos que se chama Josué. Um nazi (bíblico) que se chama Josué? Todas as informações são confusas. Nestas alturas falar de “ideologias” é já irrelevante, excepto como descrição tribal. Uma “ideologia” pressupõe uma concepção do mundo, uma formação – mesmo que mínima – e também uma comunhão com outros que partilhem essa visão do mundo. Nada disso aparenta surgir em quem, de momento, não dá outros sinais além dos de ser um criminoso (o autor refere-se às duas parte envolvidas – ndt).
Para a história da caricatura suburbana ficará a dorida lamentação daqueles que afirmam serem amigos da vítima: somos gente de paz, jovens do povo, que não pertencemos a nenhum bando, mas que não queremos que as pessoas do dinheiro, agressivas e fascistas, venham ao nosso bairro armar confusão. É a mesma cantilena dos milicianos que caçavam fascista em 1936, a mitologia do oprimido que exibe as suas chagas para justificar a perseguição que exerce contra o inimigo. É tudo tão simplório, tão primário, tão básico, tão patético…! Uma indigestão de retórica envelhecida para jovens que procuram justiça e só encontram ódio – começando pelo ódio contra si mesmos. No fim, a única realidade é, novamente, esse menino morto.
E noutro lado, mas com o mesmo registo, esses adolescentes de gestos toscos e crânio rapado órfãos de heroísmo e atulhados de brutalidade instintiva, presa fácil para o primeiro descerebrado que acaricie as suas fantasias de violência primitiva. Como os outros, quiçá procuram também algo nobre, elevado e bom no qual possam acreditar, mas, tal como os seus oponentes, encontram apenas o ódio, e sempre, do mesmo modo, esse ódio a si mesmo que se converteu no símbolo distintivo da anomia urbana.
Não estamos perante um problema político. Ninguém na Polis, por mais enraivecido que seja o ambiente, pensa em anavalhar-se. Tampouco ninguém seguirá a flauta de Hamelin com essas velhas melodias, o vitimismo da uma extrema-esquerda vingativa, o arruaceirismo duma extrema-direita degenerada. São coisas que já não fazem parte dos assuntos públicos, mas do mundo imaginário de uns jovens que, propriamente falando, já não sabem qual é o seu sítio.
A raiz do problema reside, como noutras vezes, numa existência sem sentido, desorientada, submetida à centrifugadora do dinheiro e do consumo e do sucesso, todas essas coisas que nos prometem constantemente, mas que nunca acontecem. O cerne da questão está na frustração de uma geração – pelo menos, em parte dela – que não tem bandeiras que desfraldar, porque já todas lhe foram retiradas, e que então inventa-as ou escolha as mais ruidosas, as que oferecem mais emoção.
E no final, a única realidade é esse menino morto. Esse e os que o precederam. Alguém devia levar isto a sério, de uma vez por todas.
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