Miguel Vaz
Em França, a primeira volta das eleições locais está marcada para o próximo domingo. O meu grande interesse neste sufrágio está relacionado com a participação do Bloc Identitaire, após o relativo sucesso que obteve na primeira ida aos papelinhos (principalmente em Nice), por ocasião das eleições gerais do ano passado. Desta vez os identitários franceses apresentar-se-ão em cerca de vinte listas (entre cadidaturas mais ou menos oficiais a autarquias ou de simples interesse local), algumas delas em coligação com formações mais experientes e organizadas como a plataforma Alsace d’Abord, o MNR ou até o Front National de Le Pen.
Sim, apesar de acusarem o partido de representar ideiais “jacobinos” e “reaccionários”, os identitaires também alinham com o Front National quando é necessário. É bom dizer que os principais quadros identitários foram quase todos formados no partido e Le Pen, incluindo Fabrice Robert (que esteve presente na conferência de dia 23 de Fevereiro) e o seu número dois Guillaume Luyt.
Nice, o tubo de ensaio identitário
Nestas eleições, Nice é talvez a principal frente de combate dos identitários. É também o local onde a polémica já fez correr mais tinta. A insistência dos dirigentes parisiences do Front National em apresentar uma candidatura independente, confrontando a lista unitária NISSA (encabeçada pelo identitaire Phillippe Vardon, também orador na conferência portuguesa de dia 23, e apoiada pelo MNR e vários ilustres patriotas de Nice) originou a recusa dos homens fortes de Le Pen na região.
Entretanto, em Nice, as sondagens vão dando 3% dos votos à lista de Vardon, que tinha a campanha com 1% nas estatísticas. Ora 3% é o mesmo resultado que as sondagens dão ao Front National, que tem uma certa tradição no Pays Niçois e que nas eleições municipais de 2001 havia recolhido 12% (!) das preferências. Tudo isto causou uma compreensível onda de histeria nas hostes identitárias.
É aqui que é necessário manter os pés bem assentes na terra. Analisando as mesmas sondagens, ficamos a saber que 75% dos inquiridos nunca ouviu falar de Phillippe Vardon e que 11% tem má opinião do candidato (contra 6% de boas opiniões). Na verdade, o líder da lista NISSA é o menos conhecido dos candidatos e o que reúne a “boa opinião” de menos pessoas. Além disso, a direita nacional aparece dispersa por duas candidaturas, o que confirma o problema enunciado por Alain Soral das “energias desperdiçadas em combates internos”. Por outro lado, tudo isto são sondagens com um significativo grau de incerteza e não deixa de ser um excelente sinal que a lista identitaire apareça nas estatísticas taco-a-taco com candidaturas de nível nacional (como o MoDem). No entanto, a análise destes resultados aconselha prudência e não é, de longe, motivo para prever a marcha sobre Paris para os próximos meses.


