Maria José Nogueira Pinto – Três factores marcam estas eleições: as dúvidas quanto à capacidade da UE para fazer frente aos novos problemas neste novo ciclo; a transversalidade dominante da crise; a oportunidade de, sem grandes custos, protestar contra os governos nacionais.
Por outro lado, a astenia política do cidadão, que não é uma atitude mas uma espécie de dúvida mole e, por isso mesmo, censurável, joga fortemente a favor da abstenção, sobretudo com feriados por perto. Cientes da fraca representação e do escasso poder de con- vocatória do tema nuclear destas eleições – que União Europeia e para quê -, os partidos nacionais organizam-se para esta campanha sobretudo em função dos seus interesses próprios. Facto mais visível em Portugal, cujo calendário inclui outros dois actos eleitorais nos quais se jogará o futuro equilíbrio do espectro político-partidário português. Sobretudo se o clima eleitoralista não der trégua para algumas reflexões tais como a real utilidade do BE para além de ser um contentor de descontentamento, ou se o PCP pode apontar o dedo, com uma legitimidade meramente aparente, aos desmandos do capitalismo.
Mas o certo é que, apesar de úteis, estas questões não deviam obnubilar o tema europeu, principalmente no nosso país. Portugal fez todo o seu processo de adesão e integração na UE sem qualquer debate interno, sem qualquer sufrágio directo e universal, sem qualquer escrutínio. Estas eleições podem ser a última oportunidade para discutir uma questão essencial para o nosso futuro com um olhar mais agudo, um interesse mais crítico, uma participação mais desperta. Não será assim, e é pena, porque os partidos por razões diversas escusam-se a discutir Portugal na UE, estabelecer o nexo de causalidade e analisá-lo.
O PS e o PSD têm, à partida, o problema comum de não se distinguirem na questão europeia. Desde sempre, os dois partidos pensaram sensivelmente o mesmo sobre a UE e, recorde-se, só esse tema os levou, em mais de três décadas, a um pacto de regime para rever a Constituição de 76. O PSD, com Rangel, parece ter dado a volta por cima, com um hábil discurso de ataque ao PS e ao Governo, mas tendo sempre a Europa como pano de fundo.
O PS só fala da Europa porque não quer falar de Portugal. Chega a ser patético como se escondem atrás de slogans que nos reduzem a um episódio, sem vida nem desígnio próprio, numa UE cujo rumo e modelo institucional não podem questionar.
Os restantes partidos aproveitam a onda para ensaiar um discurso críti- co bem sonante ao ouvido do eleitorado mais à direita ou mais à esquerda: seja a questão da segurança, seja o regresso a um anticapitalismo radical. Só os estreantes têm um discurso menos doméstico, como é o caso do MEP, ao valorizar um modelo europeu de desenvol- vimento humano sustentável.
Quanto a mim, esta subversão das eleições europeias é um erro. No nosso horizonte colectivo confirma-se uma incontornável mudança de paradigma que a UE, tal como está, parece não ter arcaboiço para gerir, mas a indiferença do eleitor agrava a situação: se as elites são más, a abstenção só as fortalece.
É bom não esquecer a pesada agenda europeia do próximo mandato: desde a nova e complexa arquitectura institucional resultante do Tratado de Lisboa, no âmbito de um parlamento com mais poderes, até à crise e o seu rescaldo, o desemprego, as contas públicas e a ideia de novos e discutíveis alargamentos, que constituem uma espécie de perigosa fuga para a frente.
Tudo isto devia ser suficiente para afastar a tal apatia dos eleitores e a instrumentalização, pelos partidos, deste acto eleitoral. Mas parece que assim não será. Aliás, nem em Portugal nem em muitos outros países europeus: o Eurobarómetro estacionou nos 34%…
Com a devida vénia ao Diário de Notícias.



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