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Falar claro sobre Putin

October 26th, 2007 · Post your comment (No Comments)

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 nunorogeiro.jpgNuno Rogeiro
Há sete anos, Vladimir Vladimirovich Putin era eleito presidente da Rússia pós-soviética, com cerca de 40 milhões de votos.

Lembro-me de ter coberto a segunda volta das presidenciais, nesse ano, para “O Independente”. Ieltsin, já muito diminuído, disputava o voto com o general Lebed, o herói do fim do Afeganistão e da primeira paz da Chechénia . Lembro-me de ter falado com um contacto “ocidental”, que me afiançou terem chegado a Telavive dois emissários de Ieltsin, para fazer campanha entre os judeus russos de Israel. Outros altos dirigentes tinham partido para países da Europa, com forte imigração russa, incluindo a Espanha.

Na altura, um jovem desconhecido, de nome Putin, coordenava parte destas actividades. Seria, nesse ano, o responsável pela política internacional do gabinete presidencial, e a minha fonte avisava “não o perca de vista, porque vai ser decisivo; ele e o grupo de São Petesburgo”.

Conto este episódio para rejeitar a tese, popular entre os círculos de Platon Elenin (o milionário antes conhecido como Boris Berezovksy), segundo os quais Putin representaria a “subversão” da Nova Rússia de Ieltsin, construída com coragem, nos escombros alcoólicos da URSS.

Em boa verdade, o que o sistema de Putin fez foi, em primeira linha, organizar o caos do capitalismo selvagem instituído por Ieltsin. Este tinha sido o arauto da liberdade, mas abriu uma caixa de Pandora traumatizante as grandes fortunas da Rússia actual fizeram-se entre 1991 e 1996, a começar pelos magnates do Grupo Most, pela venda ao desbarato do património público, das indústrias pesadas à tecnologia, dos transportes às comunicações, dos hotéis às matérias-primas.

Quem amealhou mais dinheiro foram os ex-gestores e responsáveis políticos, com acesso privilegiado ao Kremlin e à Duma, às suas (não) regras, aos seus segredos e aos seus humores.

Putin estabeleceu regras, distinguiu entre bons e maus oligarcas, capitalistas patriotas e traidores, decidiu adoptar um romantismo da eficácia na guerra na Chechénia, escolheu a Europa como destino da Rússia, e insistiu nos três D desenvolver, desdramatizar e “diplomatizar”.

A Rússia, tal como a Putin a quer, é “forte”, mas ao lado dos “oprimidos”, e dos que querem uma “ordem mundial mais justa”.

Mas este sonho oficial faz-se sobre a corrida aos armamentos, a tentação do culto da personalidade, e muitas verdades negras, e catacumbas. Mais do que o caso Litvinenko, que pode ter outros contornos, a morte de Ana Politvoskaya é embaraçosa para todo o sistema, a começar pelos ministérios e pelos tribunais.

Reconhecer a importância, a dignidade, a solidariedade, e até a aliança da Rússia, em muitas matérias, não pode assim significar ignorar aqueles fantasmas reais.

É preciso ajudar os russos (não o estrangeiro) a exorcizá-los.

Fonte: Jornal de Notícias

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Tags: Internacional · Sociedade