Marc George
Os Identitários viram nacionais cosmopolitas
É verdade que esta primeira universidade de verão de IR tinha qualquer coisa de iconoclasta, se nos pusermos do ponto de vista da «direita nacional» à qual Fabrice Robert, líder dos «identitários» e autor do primeiro texto, diz pertencer. Algumas imagens iconográficas revelaram-se significativas pelo seu conteúdo.
Imaginem: uma universidade de verão organizada por uma associação que não tem sequer quatro meses, reunindo 250 pessoas – pagantes – em redor do tema «A Nação face à nova ordem mundial». E que pessoas Maioritariamente jovens, nacionalistas, esquerda anti-conformista, católicos tradicionais, muçulmanos, monárquicos, ultra-republicanos laicos, nacionais-revolucionários…Todo este pequeno mundo a reivindicar o seu patriotismo, a sua vontade de uma França livre e poderosa, a sua repulsa pela «civilização mercantil», os seus valores e as suas leis.
Cereja no topo do bolo, tratou-se aí do Islão muito serenamente. Não da «islamização da França», como o tentou fazer crer o segundo autor, que em vez de reflectir, preferiu inventar completamente um tema adaptado à sua demonstração. Antes da relação entre Islão e nacionalismo francês, entre o Islão e o «combate nacional» retomando o titulo da intervenção de Christian Bouchet, entre o Islão e a França.
Mas voltemos aos textos dos identitários, e em primeiro lugar ao do seu líder, o não obstante simpático Fabrice Robert.
Este constata que se fala hoje muito de diversidade e dá o exemplo da multinacional L’Oréal, que pratica a descriminação positiva em nome dessa diversidade. Denuncia a justo título essa prática. Depois, levado pela sua justa ira contra esta diversidade enviesada, pensa poder fazer uma ligação com a universidade de IR, no decurso da qual «se teria ouvido dizer que não era necessário considerar o Islão como um perigo, que os Árabes Muçulmanos presentes no nosso solo, poderiam torna-se completamente franceses e que no final de contas era conveniente defender o «partido do povo francês na sua diversidade étnica e religiosa»
Para Fabrice, «estes propósitos constituem, no melhor dos casos, uma demissão, no pior, uma verdadeira traição. (…) Aceitando como adquirida a presença de populações estrangeiras no nosso solo, fazemo-nos cúmplices das políticas de liberalismo económico que favorecem a imigração. Uma situação estranha uma vez que ao mesmo tempo, se pretende ser um adversário irredutível do liberalismo. Baixando os braços hoje, considerando a invasão como secundária, aceitamos implicitamente o suicídio da identidade europeia.»
De seguida, last but not the least, «o discurso dos nacionais republicanos sobre o «Islão de França» não parece muito afastado daquele defendido por Nicolas Sarkozy, personagem que eles também pretendem combater com força. Foi bem este último que a favoreceu a institucionalização do Islão em França através da instalação do CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano). Enfim, quando se vê a assistência presente aquando da Universidade de Igualdade e Reconciliação e que se analisa toda a comunicação feita em redor dos seus aliados um pouco «atípicos» (e de preferência de origem extra-europeia), chegamos a perguntarmo-nos se a descriminação positiva – outro conceito caro a Nicolas Sarkozy – não está também a fazer o seu caminho nas fileiras nacionais republicanas.»
Que confusão! Confusão em primeiro lugar entre Islão e islamização. A presença em França de milhões de franceses muçulmanos é uma realidade. Tal não é um projecto soraliano, é a realidade de França. A não ser que se pretenda retirar-lhes a nacionalidade francesa e enviá-los «para o seu país», mesmo que já cá estejam há três gerações, o que Fabrice Robert de todo não assume, é necessário que admitamos que há um «Islão de França». E não vemos em nome de quê, à fortiori sendo-se «identitário», se deveria interditar a esses franceses a liberdade de culto. Lutar contra a islamização, é lutar contra a imigração em curso. É no melhor dos casos favorecer – ou exigir – a partida dos estrangeiros a viver
Confusão entre Islão e islamização, confusão também entre brancos e franceses ou não brancos e estrangeiros. Os franceses de origem extra-europeia não são «estrangeiros». Propor-lhes o patriotismo e a Nação como alternativa à ideologia mercantil não é considerar como adquirida a presença de populações estrangeiras e ainda menos favorecer a imigração. Ninguém na IR é favorável à continuação da imigração. Ninguém é favorável a esse projecto efectivamente liberal na sua essência. Se os «identitários» pensam que um francês não pode ser senão branco e que todos os franceses, à volta de 10 milhões, que o não são, são estrangeiros que devem ser expulsos à força pois bem que o digam. Será mais honesto do que procurar piolhos cosmopolitas nas cabeças dos patriotas.
Confusão ainda entre religião, identidade e comunitarismo. Se tomamos em consideração a realidade de um Islão de França e trabalhamos para que possa emergir um Islão francês, pelo patriotismo e pela consciencialização politica, não procuramos institucionalizá-lo e não aceitamos ver os seus dirigentes falar em nome de uma «comunidade» e menos ainda negociar com eles. A nossa posição sobre o CFCM é a mesma que sobre o CRIF. Nem mais nem menos. Pretender pois que a nossa posição sobre o assunto seria comunitarista ou sarkozista provém da demagogia pura e simples.
Quando à descriminação positiva que se estaria a processar na IR, e da qual Serge Ayoub seria o símbolo, uma vez que é o visado, suponho que se trata duma brincadeira e prefiro pois rir-me.
O mais divertido reside contudo na conclusão de Fabrice Robert, que nos mostra que não há, na realidade, alternativa politica à tentativa patriótica da IR. Leiamo-lo:
«Que as coisas sejam bem claras. Os Identitários não são utópicos e não sonham portanto com uma qualquer idade de ouro Sabemos que o rosto da Europa já mudou graças às políticas de imigração queridas pelos governos criminosos e sem escrúpulos, e isto à revelia dos povos do velho continente. Mas nós queremos salvar o que é ainda possível salvar. Devemo-nos pois bater para defender a nossa identidade europeia e assegurarmo-nos de que os europeus ainda mandarão na sua própria terra amanhã. O que não consiste em negar a presença imigrante nem em apontar-lhe o dedo para explicar todos os problemas da nossa época, mas em tudo fazer para a circunscrever ao máximo a fim de que ela se torne num fenómeno limitado e marginal não transformando as estruturas tradicionais e os fundamentos culturais da nossa civilização pela imposição de regras e de modos de vida estrangeiros à nossa natureza, nomeadamente através do Islão.»
Se isto não é nacional-cosmopolitismo, assemelha-se. Fabrice Robert pensa que a Europa, e por conseguinte a França, suponho, mudaram e que sonhar com uma idade de ouro não faz sentido. Deseja, como a IR, que seja posto um fim à política de imigração mas sabe bem que os milhões de franceses muçulmanos ou simplesmente de origem extra-europeia não se irão embora. Quer que a presença imigrante «se torne num fenómeno marginal» mas tal não resolve a questão dos franceses de origem estrangeira. Eis o que é animador: quando Fabrice se cansar de recrutar através de slogans simplistas – daí o volte face – poderá juntar-se à IR, desde que os seus papéis estejam
Passemos pois ao único ponto que merece que aí nos detenhamos, aquele onde o nosso amigo toma a seu cargo a defesa do famoso Jean Dupond (1), ameaçado pelo Islão, que IR numa atitude burguesa típica, abandonaria à sua triste sorte. É que Jean Dupond no seu HLM(2), para o nosso pensador da realidade, sofre o Islão no seu quotidiano: O Islão rouba-lhe a carripana, o Islão viola-lhe as mulheres, saca-lhe o portátil, olha-o de lado, trafica droga, grunhe música de merda de boné! Tal qual está assinalado no Corão!
Mas concerteza que não.
Parando com a brincadeira tocamos aí na grande fraqueza do «pensamento» identitário. Detenhamo-nos um instante sobre a França, pois é dela que se trata. A França destes últimos sessenta anos. Ela mudou inacreditavelmente no plano identitário. Mais que em mil anos talvez. No plano do vestuário, no plano alimentar, musical, o que há de comum entre a cultura popular da libertação e a de hoje? No plano dos costumes? A família, o patriarcado, o que é feito deles? Essas dezenas de milhares de tipos que desfilam nus dizendo-se orgulhosos de se sodomizarem, donde saem? As Igrejas vazias e os curas de jeans, isso vêm de onde ? O fast food? A decadência, o LSD, a coca? Esses sub proletários vestidos de nike que violam em bando, quais são os seus modelos? A escola dirigida pelos alunos? A ideologia do desejo? O consumismo excessivo, a televisão descerebralizadora, os reality-shows? O arrependimento? A pornografia? Donde nos vêm esse oceano de merda, no qual sobrenadamos de forma penível? E o Jean Dupond em tudo isto?
Não poderíamos admitir de uma vez por todas que as gigantescas mutações da identidade da França, dos franceses, têm por principal origem e desde o início, o capitalismo internacional e os Estados Unidos? Que a França foi bem mais transformada pela cultura US do que pelo Islão? Ou mesmo pela imigração, que é de resto uma sua consequência?
E se é o caso, como explicar que os identitários, aliás ditos defensores da identidade da França e dos Franceses, das tradições culturais francesas, não combatam primeiro e antes que tudo as principais ameaças que pesaram e pesam sobre o que resta da nossa identidade?
Em suma, na universidade de verão da IR, falámos de tudo isto. Franceses, estrangeiros entre si por vezes, por razões politicas, culturais ou simplesmente obscurantistas, descobriram-se e apreciaram-se. Têm consciência que a nação é a última muralha face ao maremoto capitalista e ao conjunto das suas consequências, entre as quais uma imigração ingovernável. Consciência igualmente de que o imenso património cultural francês constitui um formidável trunfo. E é a tomada de consciência destas realidades e recolocar das questões em causa que ela implica que cria turbulências, à esquerda e à direita, quer nos militantes da LCR como nos identitários.Entre o mundialismo capitalista e a IR, no plano doutrinal, não há nada. Nada a não ser mitos.
http://www.voxnr.com/cc/tribune_libre/EEAEVEEkluDffkgbHi.shtml
14/10/2007
1. “Zé-povinho”
2. Bairro Social



