Jaime Nogueira Pinto – As crises financeiras são antigas, desde as “tulipas” flamengas às bancarrotas francesa e inglesa do princípio do século 18 – a da Compagnie du Mississipi, animada pelo génio-escroque de John Law e a bolha dos mares do Sul, que deixou evocações literárias em Pope e queixumes em Newton.
Até à crise famosa entre as famosas – o “crash” de 1929. Já havia jornais, cinema e rádio, o que permitiu fixar imagens dos investidores arruinados, das filas dos desempregados, dos banqueiros de Hoover, dos “New Dealers” de Roosevelt, tipos que Scott Fitzgerald e Hollywood se encarregaram de reinventar e incluir no imaginário do século. Até hoje. Mas há constantes em todas estas crises: primeiro, uma massa de gente que, irracionalmente, quer multiplicar, em tempo curto e sem esforço, o seu capital; um núcleo reduzido de “operadores” que criam, alimentam, exacerbam e satisfazem essa expectativa, ganhando com isso. Mas o esquema não funciona sem os bancos que, pondo de lado regras de prudência, alimentam a bolha e, finalmente, o “regulador” é conivente ou está ausente ou distraído.
E há uma distância crescente entre o obscuro objecto do desejo – acções, obrigações, certificados, produtos financeiros misteriosos, só inteligíveis por iniciados – e a sua correspondência na desvalida economia real. Na Compagnie du Mississipi eram as terras pantanosas do Louisiana, na bolha dos mares do Sul, direitos de comércio no Pacífico, em 1929, terrenos na Florida e pilhas e pilhas de acções sobrevalorizadas, de empresas que os especuladores só conheciam de nome, ouvido a outros que lhas passavam. Desta vez foram os “derivados” do crédito hipotecário.
Uma amiga dizia-me, em Novembro passado, a respeito da comparação da crise de 2008 com a de 1929: “Mas não é a mesma coisa! Ainda ninguém, ninguém, se atirou da janela, como os falidos da Sexta-feira Negra em Wall Street!”
É verdade, mas a razão não é das melhores.
É que em 1929 essas pessoas sentiam- -se responsáveis, culpadas, pelos danos causados. Tinham vergonha pelos amigos enganados, pela família arruinada, pelo seu bom nome e reputação na lama.
Tinham sido educados na moral conservadora, puritana, religiosa, do cumprimento da palavra, da sacralidade do compromisso, da responsabilidade pelo risco. Agora já não: os protagonistas, primeiro, esperam que a sociedade ou o Estado lhes aguentem as perdas.
E depois não se atiram da janela; descem do elevador e vão almoçar – e bem – com os amigos. Ou dão uma entrevista na TV.
Com a devida vénia ao I.



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