Eurico de Barros – A exibição pública de filmes pornográficos em Lisboa não começou depois do 25 de Abril de 1974 . Muito antes de os capitães dos cravos nos canos das G3 terem, entre outras coisas, aberto as portas às fitas hardcore primeiro escalão (conforme a classificação arranjada à época), já os lisboetas tinham tido a possibilidade de ver cinema ollé ollé, no início do século XX, e ainda em plena monarquia (é menos uma conquista da República que se vai assinalar para o ano…).
O aparecimento do então chamado cinematógrafo deu rapidamente origem à abertura de salas para a exibição de filmes. Lisboa não foi excepção, e terá sido em 1907 ou 1908 que abriu a portas na Rua D. Pedro V, n.º 108, o Salon Rouge (o nome é só por si todo um programa), que embora sendo um espaço algo improvisado, foi o primeiro na capital a passar cinema pornográfico, em sessões que começavam à meia-noite (outra novidade em que a sala terá sido pioneira), as chamadas “Sessões para Ingénuos: Fitas d’alta potência”. (De dia, o cinema tinha sessões normais). Desconhece–se se o bilhete para essas exibições “especializadas” era mais caro do que o das sessões diurnas regulares.
Os filmes então exibidos aos “ingénuos” (ou nem tanto…) que frequentavam o Salon Rouge nessas noites de imagens inéditas e sensações pecaminosas proporcionadas pelo cinematógrafo eram obviamente mudos e muito curtos, e deviam ser de proveniência francesa. Ou eram trazidos da mesma Paris de onde na altura continuavam a chegar a Portugal os livros, as revistas, as ideias, as modas e os luxos, ou então eram encomendados juntamente com os títulos destinados ao grande público.
Recorde-se que a França e os EUA foram pioneiros também da pornografia cinematográfica, e que saiu há um par de anos no mercado francês um DVD com uma compilação muito variada desses filmezinhos cochon velhos de quase um século, verdadeiras relíquias dos primórdios da pouca-vergonha na Sétima Arte. Quem sabe se alguns deles não terão sido vistos pelos alfacinhas de então, nas escaldantes meias-noites do Salon Rouge?
Segundo conta Marina Tavares Dias no volume 7 de Lisboa Desaparecida, o programa do dia 28 de Novembro de 1908 no Salon Rouge constava de dois filmes: Duas Amigas – Hoje Há Fressura, e Pintor Modelo – Principia a Erecção. Muito antes do 25 de Abril já havia quem soubesse dar títulos coloridos aos filmes da especialidade, dignos antecessores de O Hotel das Suecas Devassas, O Rali das Gozonas ou A Minha Mulher não Tem Cama Certa, que nos anos 70 e 80 fizeram as delícias dos frequentadores do Capitólio, do Cinebolso ou do Olímpia.
Ainda segundo Marina Tavares Dias, o sucesso do Salon Rouge foi tal, que “chegou a ter ‘filiais’, como o Chalet Rotunda, na Feira de Agosto”. Histórias esquecidas de uma outra cidade, sobretudo agora, quando primeiro o vídeo e depois o DVD mataram a porno star nos cinemas, e os cinemas porno de Lisboa com ela.
Com a devida vénia ao Diário de Notícias.


